Carma

Estava voltando pra casa neste domingo quando me deparo com um adesivo colado na traseira de um carro: “Deus lhe dê em dobro tudo que desejas a mim.” Bacana.

Quem me conhece sabe que sou agnóstico. E agnóstico não significa ateu (muito menos judeu). Ao contrário do ateu, o agnóstico não nega a existência de um ou vários Deuses; ele simplesmente não tem argumentos suficientes para crer. De certa forma, esta postura me permite ter um olhar bastante crítico e imparcial sobre as religiões, o que é super positivo. Já fui e participei de cultos e cerimônias de diversas religiões, sempre mantendo um profundo respeito pela fé e pelas escolhas alheias.

Aliás, conversando com um grande amigo extremamente religioso, vejo que me identifico em muitos aspectos com sua forma de pensar, baseada no evangelho. E sempre digo que este é um dos melhores benefícios da religião: ela passa adiante uma ideia de ser um bom pai de família, de respeitar os outros, de compaixão. É claro que não convém entrar nos detalhes por trás destas motivações.

De todos os temas de religião, um dos que mais me fascina é o “carma”. A ideia toda é muito interessante, seja pela centena de virgens que os mártires islâmicos acreditam, seja pelo lugarzinho no céu da igreja católica, seja pela outra vida dos espíritas. Você já parou para pensar em como muita coisa seria diferente se você tivesse a CERTEZA de que aquilo que você faz hoje lhe será retribuído logo adiante?

Observe que, dentro da ideia de carma, a balança pende tanto para o lado positivo como para o lado negativo. Se você for um crápula, você pagará por isso um dia. E, indo mais adiante, eliminamos até mesmo a ideia de vingança, pois não cabe a você fazer o julgamento; a vida se encarrega disto. Você pode simplesmente se preocupar em fazer o bem, e somente o bem. Deixe os que te machucam ou te desprezam de lado; “the good you do always come back to you.”

Se fazer o bem vai me garantir um futuro melhor, não tenho certeza. Já é uma recompensa e tanto poder chegar ao final do dia, colocar a cabeça no travesseiro, e poder dizer: estou com a consciência tranquila. Tudo que vier a partir disso é lucro; ainda mais se for em dobro.

Sobre o dia em que descobri que não sou bonito

Um dia, há muito tempo atrás, me peguei em frente ao espelho, me encarando. Não pensem bobagens. Olhei um pouco, tentei mudar de ângulo, encarei mais um tempo. “É…”

Nascemos bonitos, ou não. Eu não sou do primeiro grupo. E, gente, perdoem-me a honestidade, mas dificilmente chegarei a fazer parte dos agraciados do primeiro grupo. A gente tenta arrumar o sorriso, fazer academia, mas enfim, se limita a isso.

A boa notícia é que não é só de beleza que a vida é feita. Sou levado a pensar que todos nascemos com um equilíbrio de qualidades e defeitos, o que me conforta o fato de não ser bonito. Acho espetacular ostentar minhas demais qualidades.

Isso me faz lembrar de uma conversa que tive com um grande amigo meu, dia desses. “Cara”, dizia ele, “eu sou o genro que qualquer pai gostaria de ter”. Fato! E é a isso que me refiro. O pai da guria não está interessado se o rapaz é bonitão ou pegador. Não, ele está interessado nas “intenções” que se tem com a filha dele, se ele tem caráter, se é honesto, se será um bom pai e, acima de tudo, se fará sua filha feliz.

Tá, Pedro, mas eu não quero saber do sogrão, eu quero saber da filha, pô! Ah, sim, a filha. Pois bem, me apresente uma mulher que não precise de carinho. Me apresente uma mulher que não queira ser amada, verdadeira e inteiramente amada. Me apresente uma mulher que não queira ser surpreendida com uma ligação, com um bilhetinho de amor, com flores no trabalho ou um jantar a luz de velas, que não deseje que você faça com que ela se sinta uma mulher. Me apresente UMA mulher.

Ficou mais claro que beleza não é tudo? E aí eu vejo esses panacas. Que não se oferecem para pagar um café para a mocinha. Que não ajudam a tirar o casaco, nem ajeitam a cadeira. Que abrem a boca e não têm nada para falar de interessante de sua vida, somente sobre a dos outros. Um dia a beleza se vai –sim, ela se vai– e o que fica disso tudo? Que diferença você realmente fez na vida da outra pessoa?

Entramos aí em uma outra discussão que é importante tecer sobre este mesmo tema. Assim como não adianta tentar oferecer aquilo que você não tem, ou aquilo que você não é, também não há motivo para se entregar a quem não busca, quem não valoriza, o seu jeito de ser.

Todos nós somos seres maravilhosos e especiais à sua maneira. E sempre haverá alguém buscando aquilo que você tem a oferecer, seja bom ou ruim. Concentre-se nas suas qualidades e esqueça todo o resto. Você se tornará uma pessoa melhor e, de quebra, muito mais feliz; a vida se encarrega do restante.

Ponto A, Ponto B

Todo mundo quer muita coisa. Seja ser bem-sucedido ou ganhar mais, seja uma mulher e dois filhos, seja um cachorro chamado Bóris, seja uma viagem a um lugar paradisíaco. Mas todos temos nossos sonhos. Até aí tudo certo. Os problemas começam quando nos frustramos por não conquistá-los, mas também não fazermos nada para isso.

O primeiro passo para conquistar um sonho é tê-lo. Duh. Mas muita gente pára por aí. Não, é preciso ir adiante. O que eu preciso para chegar até lá? Quanto falta para chegar lá? Quanto depende de mim? Bueno, aí é que a coisa começa a ficar concreta. No momento que dividimos este objetivo maior em etapas menores, o que era etéreo vai ficando mais palpável e atingível. Basta ter disciplina e um pouco de esforço para vir o resto.

Pois bem. Na quarta-feira passada fui a um evento promovido pelo Grupo de Planejamento do Rio Grande do Sul. Entre os convidados estavam Beto Bina, que trabalha no Planejamento da agência mais admirada do Brasil, a Gringo. Uma dos recados que Beto deixou foi o de “ligar os pontos”, um tema que muito se falou na Perestroika e que faz muito sentido pra mim.

A questão toda está em que, quando temos um objetivo traçado, a tendência é olharmos apenas em linha reta, ignorando os desvios de percurso. Minamos, assim, a criatividade.

Ao longo da vida vamos aprendendo coisas. Coisas que, num primeiro momento, parecem até inúteis. Exemplo: dominar todas as traquitanas do Orkut, do Twitter. Saber editar vídeos no Final Cut. Conhecer uns macetezinhos do Excel. Saber cozinhar. E, inúteis que são, acabamos nos distanciando, evitando, fazendo apenas coisas socialmente aceitáveis e dentro do padrão.

Aí é que está o pulo do gato. Aquele passado nerd que você teve pode catapultar sua carreira. As noites solitárias que você ficou grudado junto a sua mãe, aprendendo a fazer um ovo frito lhe ajudarão muito quando chegar a hora de sair de casa. Assim como aquela viagem maluca pode te abrir a cabeça para coisas que você nem tinha pensado. E o cão chamado Bóris, bom, esse deixa pra lá.

A verdade é que nada ocorre ao acaso, se assim soubermos enxergar. No calor do momento é duro, é difícil aceitar que se pode tirar uma lição, que podemos crescer com as dificuldades e as coisas mais banais. Mas se houver obstinação, meu amigo, pode ter certeza que, um dia, o ponto B vai se ligar ao A.

Pensamentos aleatórios #1

Neste frio, todos deveriam ter o direito de dormir de conchinha com seus amores.

Whatever people think, think the opposite

Domingo, 11 de julho. Em Brasília, 15h22min. Instantes precedem a final da Copa do Mundo, Espanha x Holanda. Olho pela janela e enxergo aquele belíssimo céu azul, com poucas nuvens e quase nenhum vento, e tomo uma decisão polêmica:

What if I say I’m not like the others?

É isso mesmo. Enquanto quase um bilhão de pessoas escondiam-se em suas casas, em frente a seus televisores para ver aquele show de carnificina, decidi fugir, para bem longe. O destino? Ninho das Águias. Não o do sr. Adolph, mas o de Nova Petrópolis.

It’s times like these you learn to live again

Preparo o mochilão: latinha de Coca-Cola, pacote de bolacha, câmera digital, um casaco e água mineral. “Mãe, vou dar uma volta!”. E, de fato, dei uma volta na quadra e voltei. Havia esquecido os óculos de sol.

There is no way back from here, but I don’t care.

Tudo pronto, pé na estrada. Não sabia de ninguém que tivesse ido para lá. Não sabia como chegar lá. Só sabia que, em algum momento, haveria uma placa e, passando por ela, uma estradinha de 4km de chão batido me separaria de uma vista fenomenal.

Give me one last wish
There’s a world out there

Pois bendita final de Copa do Mundo. A estrada estava com pouquíssimo movimento, apesar do lindo dia. O carro deslizava serra acima, o som dos pneus cortando o asfalto. A janela entreaberta, a corrente de ar invadindo a direção. A euforia toma conta do caminho.

I’m looking to the sky to save me
Looking for a sign of life

Eis que o tempo e o carro voam. E a bendita plaquinha estava lá, bem diante do quilômetro 181 da BR-116. É para lá que vamos. Engato a segunda e lomba acima. Pulando no banco, os pneus deslizando, o barro comendo. Vira pra cá, derrapa pra lá. Eita!

I’m just skin and bones

Chegando ao topo, atiro o carro no primeiro barral livre que encontro. Preparo a câmera, mochila nas costas, e dou de cara com aquele presente para os olhos. Que vista maravilhosa! “Vocês PRECISAVAM ver o que eu estou vendo.” Sublime. Não tive dúvidas: peguei a câmera e disparei o obturador umas quantas vezes. Sem enquadrar, sem olhar nem pensar. Quero apenas registrar esta sensação, este momento.

Six color pictures all in a row

Passado o puro êxtase, fico ali, sentado, sozinho, contemplando aquela paisagem. Olho os vales e morros. A leve brisa, o ir e vir de pessoas. Muitas pessoas. E sem dúvida eu era o único transeunte solitário por aquele rincão. Um momento só meu.

There goes my hero
Watch him as he goes

O sol foi se pondo, se escondendo. E infelizmente, em função de algumas nuvens que pairavam no horizonte, não pude contemplar o espetáculo por completo. Ele simplesmente se foi, deixando apenas o seu rastro alaranjado pelo céu.

Think it’s time you walk this lonely road all on your own

Já era hora de voltar. O frio já começava a tomar conta, o vento criava suas asas. Olho mais uma vez para aquela paisagem, fecho meus olhos e respiro fundo. Acabou.

Breathe out
So I can breathe you in
Hold you in

Ir pra selva foi a melhor coisa que eu poderia ter feito naquele domingo.

I swear I’ll never give in
I refuse

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