Um homem precisa viajar

Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.

Mar Sem Fim — Amir Klink

(dica do meu grande amigo @brunoosorio)

No canto, ela me olha

É um estranho sentimento de desapego das coisas. Certas vezes me deparo meio vago, como se aquilo que estivesse ao meu alcance já não fosse o bastante. Basta ver aquela cama recheada de molas e um confortável edredon cobrindo os travesseiros.

Com o passar dos dias ela é apenas uma… cama.

Vêm então a distância, os dias dormindo por cima de cobertores, sacos de dormir, sofás e colchões de ar que esvaziam durante a noite e te abraçam pela manhã para despertar aquele sentimento adormecido.

E ao reencontrar aquele móvel acuado na parede do quarto, após uma longa viagem de volta de feriadão, é que me dou conta de que aquilo não é apenas uma cama: é uma fantástica fábrica de sonhos. Deixo-me deslizar por debaixo daqueles lençóis e eis por cada fiozito de cabelo se transferem sonhos dos quais já mais pensei que voltaria a sonhar.

Certas vezes basta fechar os olhos que tudo fica mais claro.

Vou dormir, que amanhã tem mais.

Caridade não faz mal a ninguém

Uma de minhas 101 metas a serem cumpridas em 1001 dias era a de visitar uma creche carente. Envergonhado por ter cumprido 25% das metas e não ter feito caridade alguma, deixei a preguiça de lado e, acompanhado de minha namorada, arrecadei no armário e com a família alguns brinquedos e roupas que não utilizava mais, e tocamos para o abrigo.

Chegando lá, a primeira impressão foi boa. Um lugar amplo, ocupando dois terrenos, um para as instalações e outro com um campo de futebol, onde algumas crianças disputavam uma partida. Munidos de sacolas e mais sacolas, enchemos os olhos dos coordenadores, que ficaram encarregados de fazer a triagem e distribuir os donativos às crianças.

No salão principal algumas crianças já nos aguardavam. Uns mais soltos, outros um tanto tímidos, mas que aos poucos foram se soltando, especialmente com a notícia de que trazíamos balas, o que arrancou sorrisos de todos. De mansinho chegou um pequenino, acordado pela algazarra. Veio trazendo seus tênis, com uma carinha de sono. Me abaixei para ajudá-lo a pôr os sapatos e ele, sem vergonha alguma, veio a me estender seu pézinho para ajudá-lo.

Fomos ao pátio, e lá brincamos por cerca de uma hora. Quase fiquei descadeirado de tanto dar garupa aos pequeninos — creio que nunca viram alguém tão alto na vida, pelo menos não alguém que estivesse disposto a levantá-los ao alto uma dezena vezes. A cada brincadeira, a confiança e a alegria eram conquistadas, e mesmo neste curto espaço de tempo, já conhecíamos o nome de cada um e criávamos um grande laço carinho.

Impressionante a carência de uma das meninas do grupo. Vítima de violência doméstica, chegou ao abrigo toda cheia das marcas que sua mãe lhe infligira. Ao ver-nos, chegou quietinha, desconfiada. Mas com o passar do tempo, revelou-se a mais carente. Queria fazer tudo, queria conversar, brincar, pular, correr. Eu, eu, eu! A outra, uma morena com sardinhas na cara. A coisa mais amada, comendo uma maçã. Um outro pequenino se entretia levantando uma enorme pá de areia até um carrinho-de-mão.

Tristeza é sair de um lugar como esse, e ter crianças agarradas aos seus braços dizendo “me leva!, eu vou com você!”. Tristeza maior é refletir o que isso significa, em pensar que um ser que lhe viu uma vez só na vida, quer deixar tudo para ficar com você, pelo simples fato de ter-lhe dedicado um pouco de carinho e atenção. Resta-nos, apenas, torcer por um melhor futuro a estas crianças maravilhosas, e continuar ajudando para que não mais queiram fugir de suas vidas, mas queiram vivê-la como nunca viveram.

Minha intenção agora é riscar outro item da lista. Doar sangue o visitar um asilo, embora sugestões estejam sempre abertas. Voluntários?

Onde está o Fair Play?

Futebol já foi sinônimo de lazer. Aquela diversão do fim de semana, nas quais pai e filho assistiam uma cambada de malucos correndo atrás de uma bola até acertá-la numa rede. Um espetáculo pacífico e bonito, digno de ser visto.

Num belo dia surgem essas histórias de torcidas organizadas, gente que se une não pra curtir o jogo, mas pra brigar mesmo. Isso me lembra os tempos da Roma Antiga, política do pão-e-circo. A plebe se divertindo com escravos fugindo de leões e tigres.

Onde é que isso vai chegar mesmo? Futebol que é bom, mesmo, nada. Final do jogo: 0 × 0.

Boicote Nobre

Desde pequeno mantenho certa distância da televisão. Afora os desenhos do Tom & Jerry, do Pica Pau, dos Simpsons e uma que outra série ou filme que me interesse, passo longe do aparelho difusor de imagens. Não que eu considere a televisão como um ente diabólico na Terra, apenas não me apetece ficar sentado na frente da telinha tanto quanto de um computador.

Mas o que me faz escrever hoje não é o fato de eu não assistir à programação local e sim por tê-la assistido. Essa nova novela global das 20h é uma aberração das mais profanas. Certamente o sr. Manoel Carlos deveria ter alguma intenção outra além da que acabou sendo enlatada e cuspida no horário nobre da TV brasileira.

Uma terra de ninguém, onde todas as mulheres são sedentas por sexo, se atiram de sua cobertura do Leblon caso fiquem um dia sem ir pra cama com alguém e o viril José Mayer passando a régua em todas essas mocinhas ingênuas, fazendo o mesmo papel de “El Comedor” de sempre. Perdoem-me o palavreado, mas ficando por aí dava um belo enredo para um pornochanchada. Acrescente a isso palavrões, bate-boca, traição e gestos obcenos. Viu, é fácil escrever roteiro pra Globo. Pensando nisso, me vem à mente uma confissão de um amigo:

"Fiz uma alteração na minha vida: não vou mais olhar novela. Vou ler! Desde que começou esta nova novela eu já li umas 50 páginas do teu livro!"

É isso aí. Daqui a alguns anos, quando for pai, vou instituir a “Hora do Conto” ao invés da novela. Ou vamos tomar chimarrão em volta da fogueira, sei lá. Tudo menos assistir a esse atentado aos bons costumes. E se alguém insinuar em ligar a televisão, sacarei vorazmente o monóculo do bolso e darei aquela sarcástica fitada de um olho só, que diz: “Isso é o que você pensa!”

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