Correio dos céus

Uma leve brisa sopra a seu ouvido quando a menina leva seu olhar aos céus, trazendo consigo um susurro muito distante, vindo de um garoto por ela apaixonado. O vento dizia “menina, sinto tua falta! Estou chegando. Por favor, me espera! A saudade nos machuca, mas não há doença que nosso amor não cure. Lute por ele!”

A menina, então, ouviu o recado e sorriu. As lembranças daquele rapaz vieram a seu coração.

Encantada com o efeito mágico das estrelas, a menina enviou seu recado ao garoto. De novo, a mensagem viajou uma distância enorme, carregada de seus sentimentos e perfume. Rompeu, enfim, em lágrimas, pois a dor em seu peito era grande. Ele sentiu a pontada de dor em seu coração e desejou que ela não mais sofresse, pois uma alma tão especial não era digna de tal sofrimento.

A mensagem chegou até ele e, com o coração fervente, aflito, chorou de felicidade ao senti-la mais uma vez. A menina sabia exatamente como expulsar a dor que ele sentia.

Ouvindo: The Matrix Revolutions OST — Men in Metal (2:18)

Lua cheia

Não sei se era a lua quem olhava para mim ou eu que olhava para ela. A clara sensação de estar sendo vigiado por olhos ríspidos naquele descampado dave-me a impressão que era ela quem estava me observando, com seus negros olhos brilhantes.

Era ela quem olhava para a lua ou a lua quem olhava para ela? Ambas não saíam de minha cabeça. O lápis tremulava na mesa, lembrando-me de meu dever, embora logo caísse sobre os papéis que estavam dispostos na mesa e rolava por entre letras e anotações. Aquele olhar despertava meu interesse, desviando minha atenção de frases dispersas.

Com os olhos fixos, voltados àquela imagem alva perdida entre nuvens e uma imensidão azul, buscava vislumbrar o seu semblante mais uma vez, como uma lufada de esperança. Nada, nem mesmo um sussurro vindo de seus lábios, num tom angelical trazido pelos distantes ventos. Apenas a lembrança de seus modos delicados, seus traços de beleza incomparável, seus longos e negros cabelos esvoaçando.

A lua olhava para mim e eu olhava para a lua. Estaria ela olhando também? Uma remota esperança, porém, dizia que sim. E graças a isso, meu coração batia lépido e faceiro. Uma lembrança sua: bastava isso para estar contente.

Ouvindo: Slovak Philarmonic Orchestra – Gerswhin – Rhapsody in Blue (16:34)

Colírio

— E aí, filho, como foi lá no médico?
— Tudo certo. Meus olhos estão bons. A única coisa que ele disse é que eu preciso olhar pelo menos quatro vezes para a …
— Ahn?
— Colírio, mãe. Preciso de colírio.

Ouvindo: The Offspring – Denial, Revisited (4:32)

Um sonho

Estava em seu leito, ao lado dela. A imagem estava desfocada, mas via-se claramente sua mão passando por entre os fios de cabelo dela. Do corpo dela emanava uma intensa luz branca, vivaz, como se não fosse um ser comum, mas um anjo. Nos rostos, antes sempre desfigurados, feições de um sorriso puro e sereno se misturavam entre lençóis e travesseiros.

De súbito, raios solares penetraram em seus olhos anunciando o crepúsculo matinal, apagando de sua mente toda a magia daquela cena: estava sonhando. Baixou os olhos e tateou sua própria mão, encostando num objeto metálico e frio.

Virou-se bruscamente ao perceber um leve passo estalando o assoalho.

– Que foi?, disse ela.

– Nada não. Só pensei que… Deixa pra lá, esquece. — Seu olhar, antes assustado, adquiriu um tom de felicidade, muito próximo àquele de seu sonho. — Vem pra cá mais um pouquinho. Ainda é cedo.

Abrindo um enorme sorriso, ela deitou-se ao seu lado. Beijaram-se longa e apaixonadamente. Olharam fixamente um para o outro e partilharam do mesmo pensamento: a melhor coisa que podia ter lhes acontecido era um estar ao lado do outro naquele momento. Ele ajeitou o cabelo dela, caído sobre seus olhos, e disse:

– Só tive o mesmo sonho de sempre… O medo de que eu estivesse vivendo uma ilusão. Mas agora, aqui, contigo ao meu lado, eu tenho a certeza que o meu maior sonho tornou-se realidade.

Ela entendeu o que ele acabara de dizer e limitou-se a cerrar os olhos e dar aquele suspiro de alegria de sempre. Virou-se de costas e ficou ali, pensativa, enquanto ele a envolveu em seus braços e ficaram ali, os dois, por quase uma eternidade.

Com a mão sobre a cabeça dela, concluiu: sua jura de amor fora cumprida.