Imagens que formam um devaneio

Todo favor deve ser retribuído com uma delicadeza. E desta vez me sinto na obrigação de retribuir o favor que meu grande amigo Stefan me fez, ao insistir que eu assiste ao espetáculo Tholl, Imagem e Sonho nesta curtíssima temporada em Porto Alegre. Um favor a todos aqueles que não assistiram desta vez e perderam um dos espetáculos mais lindos que já assisti na minha vida.

Tholl

O novo circo. Um espetáculo de alegria, belas coreografias, trilha sonora 100% copiada inspirada em filmes e figurino exuberante. E mesmo não sendo bacharel em teatro, nem possuindo qualquer credencial que me permitisse dar um pitaco, eu acredito na emoção que me contagiou ao assistir à peça, e à execução impecável de seus envolvidos. Então, aos que nunca assistiram, fica a dica de um maravilhoso espetáculo.

Tholl

Ponto para a Chevrolet, UCPel e o próprio Theatro São Pedro que viabilizaram a idéia. Ponto ao Stefan pela dica. E, acima de tudo, muito obrigado à toda equipe por ter deixado a minha noite de domingo muito mais feliz.

Ouvindo: The Beatles — Within You Without You Tomorrow Never Knows

Vamos à luta!

Após um mês e meio de espera, finalmente minha carteirinha da UNE chegou. Após terem cancelado meu pedido, mesmo eu tendo pago. Após terem perdido minha foto, mesmo eu tendo enviado. Após eu ter de aguardar mais duas semanas depois de já ter enviado uma nova foto, eis que ela chega na minha caixa postal. E não é que ainda erraram o meu RG? Felizmente não trocaram o meu nome.

É hora de gozar dos benefícios e aproveitar os descontos, já que esta é uma das únicas formas de conseguir meia-entrada em Porto Alegre e no restante do Brasil. Boa sorte aos que tentarem consegui-la.

UPDATE: Recomendo a leitura da Lei n.º 9.989, de 5 de junho de 2006 do município de Porto Alegre, a qual apresenta as características e limitações da meia-entrada na cidade.

Abertura em Allegro

Hoje à noite Porto Alegre recebeu um de seus mais lindos presentes, com a abertura da temporada 2007 do Concertos Sesi, no Teatro do Sesi. Apresentou-se às 19h a Camerata Bariloche, lendária câmara fundada na Argentina, em 1962, por onde passaram muitos dos maiores expoentes internacionais da música erudita.

Logo na entrada, um ar de cultura fervilhava à espera da abertura dos portões. Na verdade um aroma de saboroso café. Velinhos e velinhas, trajados com camisa engomada e terno do mais fino corte. Jovens eram poucos, uma mostra quase que não-estatística.

O começo já revela uma surpresa: o maestro, ao invés de dar as costas ao público, põe-se diante de todos e, com seu violino pequenino, executa com maestria os solos de cordas das Quatro Estações de Vivaldi. Detalhe: mentalmente, sem nem mesmo ter partitura.

Da acústica perfeita da casa à alegria dos músicos via-se que dali sairia um grande espetáculo. Não foi para menos. Já nos primeiros compassos eu tive vontade de quebrar todos os meus CDs, mas a tranqüilidade e sutileza com a qual os músicos tocavam detiveram esta iniciativa.

Porque nada como prestigiar um espetáculo ao vivo, e isso não canso de repetir. Show é hoje, para mim, imperdível, visto que a experiência estética e o prazer proporcionados são impagáveis. Da destreza com que os músicos jovens movimentam seus braços à serenidade dos mais experientes, que tocam violoncelos como se estivessem abrindo um corpo com bisturi, passando pela troca das partituras ao contraste dos coloridos vestidos longos das moças em comparação aos trajes pretos dos homens. O piano Steinway & Sons obsessivamente polido refletindo os músicos à volta. Experiências que sem dúvida complementam e elevam o status de música à sua máxima potência.

Camerata Bariloche 2007
Exibição do grupo em 2007, no Teatro do Sesi, em Porto Alegre. Burlei as recomendações do evento, e registrei este breve momento de agradecimentos com as minhas lentes. Magnífico.

Além da apresentação impecável das Quatro Estações de Vivaldi, as Quatro Estações de Piazzolla também fizeram parte do espetáculo, músico que também fez parte da Camerata. Interessante poder observar as semelhanças entre essas duas leituras de vida, tão distantes em realidade e tempo, mas tão próximas nas suas conclusões. Piazzolla alia influências do tango e da vida urbana que representam, de forma sonora, a contradição e aflição que vive-se na cidade, em contraposição ao meio rural de Vivaldi.

Fabuloso ter esta oportunidade de conhecer de perto estes músicos. Melhor ainda ver que os gaúchos acolheram tão bem estes artistas, aplaudindo, em pé, ambas execuções, com direito a uma palhinha. Ainda que tenha sido, como de praxe, uma dificuldade enorme conseguir ser atendido pela Telentrega Opus, valeu cada centavo e minuto do meu tempo. E estarei atento para as futuras edições dos Concertos Sesi 2007.

De Cold bastou o nome

Foram quase três meses de sofrimento para que um grande sonho fosse realizado. Da compra dos ingressos, aos primeiros acordes, momentos de tensão e alegria foram intercalados incessantemente, mas enfim, na primeira noite das três exibições do tour Twisted Logic do Coldplay no Brasil, lá estava eu, “em alfa”, cantando de cor e salteado as músicas da banda inglesa.

Já no início de dezembro é que a pulga começou a mordiscar minha orelha. Ciente da vinda da banda ao Brasil, com shows apenas em São Paulo, bati o pé que daria um jeito de ir, custasse o que custasse. Afinal, já havia perdido Dream Theater em 2005, U2 em 2006 e, bom, espero que pare por aí.

Por sorte tive todo o apoio moral e logístico de minha prima, que, morando em São Paulo, se dispôs a hospedar minha namorada e eu em seu apartamento, no maravilhoso bairro Itaim Bibi –sobre o qual prometo e preciso falar em um momento posterior.

Passou natal, ano novo, férias e carnaval, e só então na madrugada do dia 23 para o dia 24 de fevereiro é que tudo pareceu mais real do que parecia: enfim embarcávamos rumo à cidade da garoa.

Choveu, é claro. Choveu no domingo, quando saímos da bilheteria dando pulos de alegria com os ingressos em nossas mãos, assim como choveu a tarde toda de segunda, dia do show.

Ingressos para o Show

Às 21h, a Via Funchal fervia em ritmo paulista. Pessoas e estilos dos mais diferentes surgiam e se moviam para todos os lugares. Todos, assim como eu, com enormes sorrisos em seus rostos, nervosos, esperando o melhor que estava por vir.

Um medo, porém, me tomava. Pois eu, contrariando as recomendações explicitas do ingresso, levei minha câmera digital, juntamente com dois pares de pilhas extras para o show, e temia ser revistado ou ter de deixar o aparelho na chapelaria. Não foi preciso. Como todo grande show, o fluxo de pessoas fala mais alto, e assim ninguém acaba ligando se você vai de mãos abanando ou leva uma Canon EOS-1D Mark II N nas suas costas. Passei pelo armário que verificava os tickets, e foi botar os pés no salão principal para começar o show de abertura da noite, às 21h15min, com os gaúchos Papas da Língua.

Sim, é lógico que reclamei por estar fugindo da minha terra para ver músicos daqui, ainda que eu goste da banda. Mas como a lógica estava mesmo para ser invertida, os Papas fizeram uma abertura bastante agradável, empolgaram o público com o seu “Eu sei” e deixaram o palco 45min minutos depois. Dali, foram mais 30 minutos de nervosismo total.

O público pediu. Começam os aplausos, gritos e assobios. A música aumenta, o palco já montado, pessoas olhando de um lado para outro. Num instante, um visitante global atrai a atenção de todos: Rodrigo Santoro dirige-se ao seu lugar no mezanino central. Mais gritos, as luzes se apagam, 6.000 vozes vão à loucura, Beatles invadem as caixas de som e, subitamente, a introdução de Square One enlouquece a platéia.

Guitarra, baixo e bateria entram em cena. Chris Martin ainda nos bastidores canta os versos iniciais, com um “uaaaa” ensurdecedor da platéia. Quando entra o “From the top of the first page”, o vocalista invade o palco, cercado de luzes num espetáculo sem precedentes, levando os fãs ao delírio. Daí em diante sucedem-se pulos e mais pulos de uma platéia que preferiu ficar em pé o espetáculo inteiro, apesar das cadeiras numeradas, deleitados pelas baladas inglesas.

“E aí, beleza?”, diz Chris Martin, arranhando um português à lá embromation, contagiado pelo calor brasileiro. Uma, das muitas surpresas que estariam por vir, incluindo balões gigantes caindo do teto ao som de Yellow, a uma canção com a banda no meio da platéia, ou ainda a lâmpada arremessada contra o público em “Fix You”, música inesquecível. Um show tão magnífico, tão intenso, que via-se a alegria transbordar tanto dos músicos como de seus grandes fãs. Pena, é claro, a breviedade do show: Intensa hora e meia de felicidade.

Acredito que não fosse o desapego da platéia, um forte “bis” poderia ter trazido a banda mais uma vez ao palco, ainda que tenham tocado, a pedido dos presentes, a música Shiver, numa total improvisação. Vinte e seis de fevereiro de dois mil e sete. Eu sim fiquei feliz. Inesquecível.

Hotdog, revisited

Todo mundo sabe de alguém que com sua carrocinha de cachorro quente fez seu pé-de-meia e hoje tem casa, carro, comida e roupa lavada graças ao ponta-pé inicial desta atitude. É sabido que cachorro quente é barato, e custa menos ainda para ser feito. Pois num mundo onde tudo que é moda vira religião e, portanto, todo profeta ganha dezenas de seguidores, o negócio mesmo é olhar o negócio de um jeito diferente.

Pois então circulo na madrugada de uma sexta-feira em busca de um mata-fome diferenciado. Enquanto todas as carrocinhas pelas quais passei estavam vazias, havia uma em especial que lá pelas 22h da noite entregava seu sexagésimo pedido (sendo que em alguns pedidos haviam mais de dois cachorros). O que justificaria o fato de, mesmo que este ponto tivesse um preço relativamente mais alto que a concorrência (R$ 5,40 um cachorro de de lingüiça calabresa) estivesse cheio de gente, enquanto os outros estavam vazios?

Primeiro lugar: o ponto. Os donos pensaram em colocar a carrocinha perto de uma praça, fugindo da idéia dos demais de colocar bem no centro da cidade, próximo aos bares e ao movimento. Loucura? Não, assim há mais vagas e o pessoal pode estacionar os carros com a maior facilidade. E não é só isso, colocaram um guarda na praça, para que os casais que queiram aguardar possam flertar como nos velhos galentes de antigamente sem preocupação alguma.

Segundo: a aparência. Não é toda carrocinha que tem logotipo e passa a noite tocando, em alto e bom som um U2, certo? Pois é, e não bastasse isso, tudo é muito limpo e bem ajeitadinho. Até mesmo a mamãe gostaria de comer lá, por mais que ela diga que cachorro-quente é fonte de gorduras e outras porcarias nocivas ao organismo.

Terceiro: os mimos. Gente minha amiga, e o que falar de uma carrocinha com direito a lavabo? Sim, senhores, lavabo! Logo ao lado da cabine, tiveram a idéia de instalar uma bomba de água dessas de 20 litros desembocando numa torneira, e ainda fixaram um recipiente com sabonte, espelho e porta-toalhas para secar as mãos. Carambola! E o pedido é entregue na mesa, com direito a puxação de saco e tudo mais.

De nada adiantaria essa maquiagem toda se o produto, no final das contas, não fosse bom. Mas não seria aí que ele falharia: é uma “dilícia”. O sabor do azeite de oliva dá um toque todo especial ao gosto. Quem diria que comer um cachorro quente seria uma experiência digna de se comentar numa mesa de bar…

Vivem dizendo que não se deve reinventar a roda. Pois eu digo que marketing se aprende com os carroceiros de cachorro quente.

(Philip Kotler acaba de se revirar no túmulo.)

Cof. Cof. (se recompondo). Bom, ãhn, eu não ganho cachê nem vale-refeição com isso, mas quem quiser conferir, que dê uma passadinha no Springfield (não, não a cidade dos Simpsons), que é no final (início?) da Av. Independência, bem ao lado da Praça do Imigrante.

Ouvindo: Dream Theater – Trial of Tears

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