Foram quase três meses de sofrimento para que um grande sonho fosse realizado. Da compra dos ingressos, aos primeiros acordes, momentos de tensão e alegria foram intercalados incessantemente, mas enfim, na primeira noite das três exibições do tour Twisted Logic do Coldplay no Brasil, lá estava eu, “em alfa”, cantando de cor e salteado as músicas da banda inglesa.
Já no início de dezembro é que a pulga começou a mordiscar minha orelha. Ciente da vinda da banda ao Brasil, com shows apenas em São Paulo, bati o pé que daria um jeito de ir, custasse o que custasse. Afinal, já havia perdido Dream Theater em 2005, U2 em 2006 e, bom, espero que pare por aí.
Por sorte tive todo o apoio moral e logístico de minha prima, que, morando em São Paulo, se dispôs a hospedar minha namorada e eu em seu apartamento, no maravilhoso bairro Itaim Bibi –sobre o qual prometo e preciso falar em um momento posterior.
Passou natal, ano novo, férias e carnaval, e só então na madrugada do dia 23 para o dia 24 de fevereiro é que tudo pareceu mais real do que parecia: enfim embarcávamos rumo à cidade da garoa.
Choveu, é claro. Choveu no domingo, quando saímos da bilheteria dando pulos de alegria com os ingressos em nossas mãos, assim como choveu a tarde toda de segunda, dia do show.

Às 21h, a Via Funchal fervia em ritmo paulista. Pessoas e estilos dos mais diferentes surgiam e se moviam para todos os lugares. Todos, assim como eu, com enormes sorrisos em seus rostos, nervosos, esperando o melhor que estava por vir.
Um medo, porém, me tomava. Pois eu, contrariando as recomendações explicitas do ingresso, levei minha câmera digital, juntamente com dois pares de pilhas extras para o show, e temia ser revistado ou ter de deixar o aparelho na chapelaria. Não foi preciso. Como todo grande show, o fluxo de pessoas fala mais alto, e assim ninguém acaba ligando se você vai de mãos abanando ou leva uma Canon EOS-1D Mark II N nas suas costas. Passei pelo armário que verificava os tickets, e foi botar os pés no salão principal para começar o show de abertura da noite, às 21h15min, com os gaúchos Papas da Língua.
Sim, é lógico que reclamei por estar fugindo da minha terra para ver músicos daqui, ainda que eu goste da banda. Mas como a lógica estava mesmo para ser invertida, os Papas fizeram uma abertura bastante agradável, empolgaram o público com o seu “Eu sei” e deixaram o palco 45min minutos depois. Dali, foram mais 30 minutos de nervosismo total.
O público pediu. Começam os aplausos, gritos e assobios. A música aumenta, o palco já montado, pessoas olhando de um lado para outro. Num instante, um visitante global atrai a atenção de todos: Rodrigo Santoro dirige-se ao seu lugar no mezanino central. Mais gritos, as luzes se apagam, 6.000 vozes vão à loucura, Beatles invadem as caixas de som e, subitamente, a introdução de Square One enlouquece a platéia.
Guitarra, baixo e bateria entram em cena. Chris Martin ainda nos bastidores canta os versos iniciais, com um “uaaaa” ensurdecedor da platéia. Quando entra o “From the top of the first page”, o vocalista invade o palco, cercado de luzes num espetáculo sem precedentes, levando os fãs ao delírio. Daí em diante sucedem-se pulos e mais pulos de uma platéia que preferiu ficar em pé o espetáculo inteiro, apesar das cadeiras numeradas, deleitados pelas baladas inglesas.

“E aí, beleza?”, diz Chris Martin, arranhando um português à lá embromation, contagiado pelo calor brasileiro. Uma, das muitas surpresas que estariam por vir, incluindo balões gigantes caindo do teto ao som de Yellow, a uma canção com a banda no meio da platéia, ou ainda a lâmpada arremessada contra o público em “Fix You”, música inesquecível. Um show tão magnífico, tão intenso, que via-se a alegria transbordar tanto dos músicos como de seus grandes fãs. Pena, é claro, a breviedade do show: Intensa hora e meia de felicidade.

Acredito que não fosse o desapego da platéia, um forte “bis” poderia ter trazido a banda mais uma vez ao palco, ainda que tenham tocado, a pedido dos presentes, a música Shiver, numa total improvisação. Vinte e seis de fevereiro de dois mil e sete. Eu sim fiquei feliz. Inesquecível.