Pobre do Dedê

Demitri foi um cara que tentou abraçar o mundo. Desde cedo já fazia um bocado de coisas ao mesmo tempo. Dedê, como era chamado por sua avó, apelido este que acentuava o erro do burocrata que registrara seu nome, brincava de carrinho com uma mão enquanto a outra segurava uma lupa, queimando formiguinhas no quintal com os raios solares. Não que fosse de todo malvado, Dedê era até gente boa; estava mesmo interessado em tentar entender como, do nada, surgia aquela “fumacinha” no indefeso animal.

Na escola fora um garoto talentoso. Dedicado e muito esforçado, fazia todas as suas lições e ainda se prestava a procurar na enciclopédia mais informações a respeito dos temas que lhe interessavam. Criado ouvindo os grandes mestres da música clássica durante o sono, hábito incutido por sua mãe, reconhecia em questão de segundos as diferentes sonatas para piano e violino de Beethoven. Além disso, lia muito: pelo menos cinco livros circulavam em sua mesa de cabeceira. Lia todos ao mesmo tempo, um pouco de cada, todas as noites.

O problema de Dedê era viver tentando abraçar o mundo. Voltemeia era pego resmungando da vida quando ia ao banheiro — considerava o fato de ter de fazer suas necessidades uma completa e desnecessária perda de tempo. Quando flagrado, rapidamente olhava para suas unhas, como se estivesse a deixar o tempo passar, fingindo-se despreocupado, e saía, após gritar um “ah!” para retomar o que deixara de fazer.

O jovem irriquieto morreu cedo, aos 37. Caiu do alto do telhado de sua casa, escorregando no jornal que levara para ler enquanto arrumava a antena de TV. Mas antes de finalmente se esborrachar no chão, teve tempo de gritar:

– Merda! Eu ainda tinha tanta coisa pra fazer!

Ouvindo: Dream Theater – Beyond This Life

Primeiro sopro da estação

Já era outuno e o verão tinha se ido. O frio caía do céu e pousava sobre minhas costas, já exaustas do tamanho peso que carregava. Ao fundo, luzes acesas, salas vazias, corredores inabitados.

Minutos após a triste conclusão, o dono do terreno chegou para me expulsar. Tinha saído para namorar; voltou sorrindo para me zombar. E falou em tom seco:

– Você jogou fora o seu verão. Agora um frio outono te espera. Suma daqui!

Ninguém, absolutamente ninguém se encontrava naquele degrau do corredor. Nem mesmo eu. Mas ainda assim o quero-quero insistia em olhar para lá.

Um ninguém diante do nada.