Ensinando Avestruzes
Meu eleitorado me conhece e, portanto, não posso mentir. Fui um aluno extremamente chato quando estudante do Ensino Médio. Chato não no sentido de pentelho, condição que hostentei até a sexta ou sétima série, mas sim pelo simples fato de “querer saber mais”.
Juro que tentei me controlar. Quando o professor explicava uma teoria e a bola ficava picando, eu confesso, tentava ficar de boca calada e virar para o lado a fim de ver o movimento no pátio, já que, “ah, tá muito longe da prova”. Mas não dava. Eu ia ficando vermelho, nervoso e, de repente, a boca se abria, voluntária, mas inconscientemente, e surgia aquele “tá, mas…”. Pronto. Trinta cabeças se voltavam para mim, pensando “ih, lá vem o nerdinho denovo”, o professor baixava os ombros, de frente para o quadro e eu, é claro, fingia que aquilo era uma situação normal.
É claro que normal aquilo não era normal. Era uma doença, cultivada desde pequeno, quando eu brincava de “médico eletrônico”, tentando entender como funcionava um telefone sem-fio estragado, ou quando eu me perguntava onde ficaria o “motorzinho” que empurrava a fita para fora do aparelho de videocassete. Ali estava algo que eu sabia estar longe da ideologia comum de um jovem de 16 anos, mas isto não me preocupava mais do que não ter as respostas para minhas dúvidas.
Dos males o menor. Não fosse esse meu ímpeto desregrado de querer saber tudo, tudo, entender o por quê das coisas, hoje não estaria ao lado de minha menina dourada, que confessa: “no início eu tinha raiva de ti, e aquelas perguntas sem nexo. Mas depois vi que era algo que fugia do teu controle, que fazia parte de ti e aí…”. E aí não tinha jeito mesmo.
O período escolar até que não foi tão inquietante como vem sendo a formação superior. Afinal, eu estava lá para receber uma formação supostamente média, o que excluiria minhas perguntas que fugiam do escopo previsto. Mas hoje, sentado diante de uma professora universitária que me diz que “uma coisa é assim por que… é assim”, eu pergunto: então por quê ao invés de irmos pra escola, ou pra universidade, não pegamos uma pá e cavamos um buraco bem fundo para enfiar um saco de dinheiro para ver o que acontece? Porque, céus, é isto que muita gente busca numa faculdade.
