Lá ou aqui?
Fui tomado por uma estranha sensação em meu último aniversário. Não por ter chegado à tão desprezada marca de 24 anos. Nem por ter conseguido reunir um bocado de amigos das mais variadas tribos. Mas pelo simples fato de que eu pressentia que o meu próximo aniversário não seria comemorado no Brasil.
Também pudera. No dia seguinte, estava eu num avião rumo a Paris e Londres. Voltar à Europa, agora com um olhar mais maduro e interessado, foi uma das experiências mais marcantes e felizes da minha vida. Tão marcante a ponto de me deixar desorientado por alguns meses.
À perturbação de ter aberto os olhos para um horizonte muito maior somava-se um trabalho de conclusão de curso e o fim de um ciclo — minha graduação em Publicidade e Propaganda. Motivos não me faltavam para ficar com um sentimento de “tá, e agora?”
Papel e caneta me foram solidários. Me coloquei a pensar nas possibilidades disponíveis. Até então, minhas ideias se limitavam ao meu entorno: me mudo pra capital? Busco um programa de trainee? Faço uma especialização? Encaro direto um Mestrado? Tenho experiência suficiente para um MBA? …
Do brainstorm surgiram muitas ideias, como era de se esperar. Como aprendi com um talentoso redator publicitário, deixei as ideias dormirem por um certo tempo. A lista ficou ali, no canto da mesa. E toda vez que me sentava diante do computador, ela ficava me fitando, e eu fitando ela, de rabo de olho. Até que um dia me ocorreu um estalo, inclinei a cabeça em direção ao nada e pensei: “e por que não ir além?”
Um antigo sonho… Novos horizontes… Pensar grande… Vou estudar na Inglaterra!
E foi assim que, numa bela noite de verão, no exílio do meu quarto, sacramentei uma das mais importantes decisões da minha vida. O que veio depois, todos os cálculos, pesquisas e consultas, só veio para afirmar o que já estava decidido: que eu não passaria o meu próximo aniversário aqui.
Não é fácil tomar uma decisão destas. Pense nas variáveis envolvidas e, acredite: há outras tantas que você nem sequer consegue imaginar. Uma decisão como esta molda e transforma tudo o que passou e o que está por vir. Abre-se mão de muitas coisas, entre elas as mordomias de casa, as economias de muitos anos, a praticidade do carro, a segurança do emprego, o conforto dos amigos e da família.
Como um dia já me disseram, arriscar é para poucos. E, um projeto como este nada mais é do que um risco. Há o risco de voltar pra casa no primeiro mês, como já vi muitos fazerem. Há o risco de eu me arrepender até o último fio de cabelo. Há o risco disso tudo se transformar numa maravilhosa experiência de vida, capaz de proporcionar ainda mais oportunidades pessoais e profissionais. Assim como há o risco de eu passar outros tantos aniversários longe de casa. Seja lá ou aqui, só existe uma forma de saber. Arriscando.
