Vícios e sonhos

Sou um viciado. E estou há … dias sem cair em tentação. Ouvira que os depoimentos em grupos de apoio a pessoas com algum tipo de vício começavam mais ou menos assim, e achou o máximo.

Era frequentador assíduo dos bares de sua cidade. Não estava isolado do convívio social, então quase sempre tinha companhia. Se reuniam para tomar uma, duas cervejas. Mas o fato é que nunca saíam antes de tomar meia dúzia. Cada um.

Quando não havia ninguem, ia sozinho. Mas aí sentava na mesma mesinha do canto, no escuro. Pedia sua cerveja, sorvia um gole gelado e ficava ali, a contemplar as ranhuras da mesa e os transeuntes se divertindo na rua.

Pelo menos não era do tipo birrento. Não, não. O que mais lhe interessava era realmente as ranhuras daquela mesa de bar. Era a única coisa que podia contemplar sem precisar entender ou pensar. E isso lhe bastava.

O seu único limite era o horário do ônibus. O último partia às 23h30min, então 15 minutos antes ele tratava de encerrar a conta. Tinha a impressão de sempre receber menos dinheiro no troco, mas só percebia isto no dia seguinte. E, não raras vezes, ficava tão absorto com as ranhuras da mesa que perdia a hora e aí tinha de voltar a pé. Dava quase 35 minutos até seu apartamento. Trinta e cinco minutos de frio e passos desorientados.

Acordava sempre com o estômago embrulhado, os lábios secos. Mas a cabeça, pelo menos, sedada. Era como se houvesse passado do dia para a noite, sem sonhos, sem lembranças nem esperanças. Bem. Mais um dia livre de seu vício.

Pau pra (quase) toda obra

Um dos melhores conselhos que aprendi na vida profissional foi: aprenda a dizer não. Sou o tipo de profissional pau pra toda obra: o que cair na minha mesa, não ferindo minha moral e os bons costumes, eu faço. Mesmo que não seja bem a minha área, ou que não esteja tão ao meu alcance. Corro atrás, estudo, dou um jeito, mas entrego.

Tem um lado super positivo nisso tudo. À medida que tu vai assumindo (e cumprindo) os desafios que te lançam, teus gestores passam a te olhar com outros olhos. Os trabalhos vão ficando cada vez mais complexos, permitindo um maior grau de envolvimento e liberdade, para que tu possa deixar a tua marca. A confiança depositada e a complexidade dos desafios são diretamente proporcionais à responsabilidade. Não é fácil voltar pra casa com a mesa cheia de pepinos para descascar. A tensão e o peso nos ombros tornam-se fiéis companheiros. Mas ok, faz parte de ser “grandinho”.

O problema é quando passam a te enxergar como um messias. “Bom, eu não sei bem como resolver isto, então… Eu vou deixar na mesa do Pedro.” E aí começam a cair coisas que não tem ABSOLUTAMENTE NADA A VER com a tua área, vindas de quem está acima, ao lado, embaixo. Com certa frequência me tiram pra RH, psicólogo.

Eu ouço. Eu ouço e tento, pelo menos, deixar um recado: seja profissional. Faça o que lhe compete, abrace as causas que dependem de você, mas não assuma brigas que não são suas. A linha aqui é tênue, mas é a mesma que separa a vida particular da profissional. E tem gente que não sabe lidar com isso. Misturam tudo, tomam críticas a seu trabalho como se fossem a si próprias. E vice-versa.

É nessas ocasiões que me ocorre um flashback daquele momento em que aprendi a dizer não. Que aprendi a dizer não para não prometer aquilo que não posso cumprir. Que aprendi a dizer não para passar mais tempo com a minha família, minha namorada, meus amigos. Que aprendi a dizer não até mesmo para trabalhar mais e melhor, naquilo que faço bem.

Por isso que eu digo que este foi um dos melhores conselhos que já recebi. Pois, por incrível que pareça, dizendo não eu abri muito mais portas do que fechei. Agora me dêem licença. Vou ali salvar o mundo e já volto.

Pq tuitamos?

Gosto muito de refletir do por que as coisas são como são. Redes sociais, por exemplo. É uma coisa que quase todo mundo tem, usa, mas não entende bem o propósito. Claro, tem aqueles que REALMENTE não entendem o propósito. E a maioria restante simplesmente segue a onda.

Voltando um pouco no passado, no início do século, para ser mais exato (chique, hein?), tivemos o boom dos blogs. As pessoas liam, não gostavam. Liam de novo, gostavam. E aí queriam ter o seu. Era aquela mão dos infernos, registrar conta, configurar o template, mas, graças a serviços como o blogspot, o cidadão conseguia ter o seu blog no ar. E aí? Falar sobre o quê? Escrever sobre o quê? Pra quem?

Depois vieram as redes sociais. No caso específico do Brasil, o Orkut, que inundou as caixas postais alheias com “Fulano quer ser seu amigo”. Orkut. Primeiro veio aquela corrida frenética do tipo “quem tem mais amigos”. Tinha aquelas gracinhas com 4, 5 perfis “LOTADO!!!!!!!!!!”. Popular, não? E as comunidades também, que diziam muito sobre a pessoa. Mas é no perfil e nas fotos que as pessoas se revelavam.

Surgiram outros serviços aqui e ali. Flogão, por exemplo. Nem foi tão significativo, mas o nome é bacana. Flogão. Veio o Facebook também, o país Facebook, com seus literalmente milhões de usuários, mostrando que uma rede social não precisa ser feia para agradar ao público.

Mas o Twitter, este sim foi uma evolução. Uma rede social sem fotos? Com limite de 140 caracteres? O que tem ali? Sobre o que devo escrever?

Ok. História à parte, vamos à reflexão. Por quê diabos expomos nossas vidas na web? Por que blogamos? Por que criamos perfis, mandamos scraps e testemunhais? Afinal de contas, por que tuitamos?
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“O homem nada pode querer, a menos que antes compreenda que só deve contar consigo mesmo; que está só, abandonado na terra em meio a suas responsabilidades infinitas, sem ajuda, sem outra meta que não a que estabeleceu para si, sem outro destino que não aquele que forja para si mesmo neste mundo.”

Jean-Paul Sarte

A partida

Era uma tarde de primavera. Sei disto porque só nesta época que o sol atingia a árvore defronte a nossa casa daquela maneira. Eles haviam partido há pouco. Mesmo com certa tristeza, por ter a casa vazia a partir de agora, conservava o canto da boca levantado; sorridente. Ver aquele menino que eu havia pegado no meu colo, que havia dito suas primeiras palavras na minha frente e que agora partia para viver a sua vida era um misto de perda e de alegria. Minha missão estava cumprida.

Fiquei parado um tempo, encostado na porta, desde o momento em que partiram, ele e a namorada. Gostava da minha nora, e sabia que era recíproco. Acompanhei com meus olhos o carro diminuindo, diminuindo, até desaparecer na curva logo adiante. Olhei para aquela árvore, cujas folhas ficavam de uma coloração diferente em função dos raios de sol e sorri. Estávamos sós.

Olhei pelo ombro e vi que ela também estava parada, logo atrás de mim. Já me olhava há tempo. Ela… Me virei e sorri mais uma vez. Contemplei aquela mulher que havia estado ao meu lado durante todos aqueles anos. É certo que a idade já lhe havia trazido algumas rugas, e alguns cabelos brancos. Mas parada ali, do jeito que estava, era a coisa mais linda da minha vida.

Fechei a porta, me aproximei e a abracei. Beijei aquele rosto como sempre fiz, e a segurei nos meus braços por um longo tempo. Ela sabia o que se passava pela minha cabeça, sem que nenhum de nós precisasse pronunciar uma palavra sequer. Peguei a sua mão, toquei a aliança com a ponta do dedo e perguntei: “para onde vamos este ano?” Ela me olhou e sorriu.

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