Vícios e sonhos
Sou um viciado. E estou há … dias sem cair em tentação. Ouvira que os depoimentos em grupos de apoio a pessoas com algum tipo de vício começavam mais ou menos assim, e achou o máximo.
Era frequentador assíduo dos bares de sua cidade. Não estava isolado do convívio social, então quase sempre tinha companhia. Se reuniam para tomar uma, duas cervejas. Mas o fato é que nunca saíam antes de tomar meia dúzia. Cada um.
Quando não havia ninguem, ia sozinho. Mas aí sentava na mesma mesinha do canto, no escuro. Pedia sua cerveja, sorvia um gole gelado e ficava ali, a contemplar as ranhuras da mesa e os transeuntes se divertindo na rua.
Pelo menos não era do tipo birrento. Não, não. O que mais lhe interessava era realmente as ranhuras daquela mesa de bar. Era a única coisa que podia contemplar sem precisar entender ou pensar. E isso lhe bastava.
O seu único limite era o horário do ônibus. O último partia às 23h30min, então 15 minutos antes ele tratava de encerrar a conta. Tinha a impressão de sempre receber menos dinheiro no troco, mas só percebia isto no dia seguinte. E, não raras vezes, ficava tão absorto com as ranhuras da mesa que perdia a hora e aí tinha de voltar a pé. Dava quase 35 minutos até seu apartamento. Trinta e cinco minutos de frio e passos desorientados.
Acordava sempre com o estômago embrulhado, os lábios secos. Mas a cabeça, pelo menos, sedada. Era como se houvesse passado do dia para a noite, sem sonhos, sem lembranças nem esperanças. Bem. Mais um dia livre de seu vício.
