Quebrando o silêncio

Sábado foi daqueles dias. Era como se eu tivesse passado o tempo todo ouvindo um sussurro nos ouvidos e não soubesse de onde ele vinha. Estava só, ninguém por perto, mas ao mesmo tempo aquela voz, aquela suave voz, chegava aos meus ouvidos.

Certas coisas na vida a gente tenta ignorar. Simplesmente faz de conta que não existe, que não sente. Joga para o fundo do armário e deixa largado no escuro. Pois foi justamente lá, dentro do armário, que o encontrei: meu par de tênis velhos, surrados, sujos, implorando para sair dali. Seu safado, era você quem passou o dia no meu ouvido, é?

Tratei de cumprir a sua, que era a minha vontade. Peguei o mínimo necessário, num puro minimalismo. Até o molho de chaves ficou mais leve. Tão leve quanto o surrado tênis velho. Prometi que, com os pés na rua, não iria mais pensar. Nem mesmo buscar os antigos caminhos, ou as mesmas músicas. Tudo ficou para trás.

Tem horas que preciso desligar o implacável código moral que habita minha cabeça. Parar de questionar cada ato, parar de tentar entender tudo o que se passa na minha vida e com os que estão à minha volta. Simplesmente pegar a estrada e me deixar ir, sem rumo, sem reflexões, sem insistir na mesma tecla. Voltar os olhos para fora, para poder enxergar melhor o que há dentro. Ser o que sou; só, em meio à multidão.

O velho par de tênis ganhou o seu passeio e calou-se. Jogado, no escuro, bem no fundo do armário, quem começou a sussurrar fui eu.

Comentários »

  1. É… as vezes temos que parar, refletir, escutar nossos desejos. Escutar o “eu” q esquecemos.

    Comentário de ANA CAROLINA — 12.08.2010 às 13:40

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