Pau pra (quase) toda obra
Um dos melhores conselhos que aprendi na vida profissional foi: aprenda a dizer não. Sou o tipo de profissional pau pra toda obra: o que cair na minha mesa, não ferindo minha moral e os bons costumes, eu faço. Mesmo que não seja bem a minha área, ou que não esteja tão ao meu alcance. Corro atrás, estudo, dou um jeito, mas entrego.
Tem um lado super positivo nisso tudo. À medida que tu vai assumindo (e cumprindo) os desafios que te lançam, teus gestores passam a te olhar com outros olhos. Os trabalhos vão ficando cada vez mais complexos, permitindo um maior grau de envolvimento e liberdade, para que tu possa deixar a tua marca. A confiança depositada e a complexidade dos desafios são diretamente proporcionais à responsabilidade. Não é fácil voltar pra casa com a mesa cheia de pepinos para descascar. A tensão e o peso nos ombros tornam-se fiéis companheiros. Mas ok, faz parte de ser “grandinho”.
O problema é quando passam a te enxergar como um messias. “Bom, eu não sei bem como resolver isto, então… Eu vou deixar na mesa do Pedro.” E aí começam a cair coisas que não tem ABSOLUTAMENTE NADA A VER com a tua área, vindas de quem está acima, ao lado, embaixo. Com certa frequência me tiram pra RH, psicólogo.
Eu ouço. Eu ouço e tento, pelo menos, deixar um recado: seja profissional. Faça o que lhe compete, abrace as causas que dependem de você, mas não assuma brigas que não são suas. A linha aqui é tênue, mas é a mesma que separa a vida particular da profissional. E tem gente que não sabe lidar com isso. Misturam tudo, tomam críticas a seu trabalho como se fossem a si próprias. E vice-versa.
É nessas ocasiões que me ocorre um flashback daquele momento em que aprendi a dizer não. Que aprendi a dizer não para não prometer aquilo que não posso cumprir. Que aprendi a dizer não para passar mais tempo com a minha família, minha namorada, meus amigos. Que aprendi a dizer não até mesmo para trabalhar mais e melhor, naquilo que faço bem.
Por isso que eu digo que este foi um dos melhores conselhos que já recebi. Pois, por incrível que pareça, dizendo não eu abri muito mais portas do que fechei. Agora me dêem licença. Vou ali salvar o mundo e já volto.
