A partida

Era uma tarde de primavera. Sei disto porque só nesta época que o sol atingia a árvore defronte a nossa casa daquela maneira. Eles haviam partido há pouco. Mesmo com certa tristeza, por ter a casa vazia a partir de agora, conservava o canto da boca levantado; sorridente. Ver aquele menino que eu havia pegado no meu colo, que havia dito suas primeiras palavras na minha frente e que agora partia para viver a sua vida era um misto de perda e de alegria. Minha missão estava cumprida.

Fiquei parado um tempo, encostado na porta, desde o momento em que partiram, ele e a namorada. Gostava da minha nora, e sabia que era recíproco. Acompanhei com meus olhos o carro diminuindo, diminuindo, até desaparecer na curva logo adiante. Olhei para aquela árvore, cujas folhas ficavam de uma coloração diferente em função dos raios de sol e sorri. Estávamos sós.

Olhei pelo ombro e vi que ela também estava parada, logo atrás de mim. Já me olhava há tempo. Ela… Me virei e sorri mais uma vez. Contemplei aquela mulher que havia estado ao meu lado durante todos aqueles anos. É certo que a idade já lhe havia trazido algumas rugas, e alguns cabelos brancos. Mas parada ali, do jeito que estava, era a coisa mais linda da minha vida.

Fechei a porta, me aproximei e a abracei. Beijei aquele rosto como sempre fiz, e a segurei nos meus braços por um longo tempo. Ela sabia o que se passava pela minha cabeça, sem que nenhum de nós precisasse pronunciar uma palavra sequer. Peguei a sua mão, toquei a aliança com a ponta do dedo e perguntei: “para onde vamos este ano?” Ela me olhou e sorriu.

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