Minha passagem pela polícia
Me apresentei à polícia, hoje. O motivo não vem ao caso, até porque fui por livre e espontânea vontade. O fato é que 8h30min eu estava lá.
Mas antes, o mar de dúvidas. Ainda na cama, um duelo de anjos, que me fizeram pensar e repensar na ideia. Vou mesmo? Fico? Afinal, estou fugindo do quê?
No fim prevaleceu a vontade, e o dever de se levantar às 6h30min, com o termômetro marcando 5ºC, pronto para encarar a gilete no rosto. É óbvio que eu demorei no banho. É óbvio que já estava atrasado. É óbvio que não sobrou tempo nem pra tomar um copo d’água, muito menos café da manhã. O que, por sua vez, leva a concluir que é óbvio que eu saí de mau humor.
Pensei em ir pra polícia ouvindo um rock pesado. Sempre é hora de ouvir um rock pesado. Mas aí, pensando bem, digo não, vou ouvindo as notícias. Vai que alguma delas muda o meu dia, ou minha vida para sempre. Quem sabe?
Pé no fundo, BR-116. No rádio, o locutor só me dizia que o caminho que eu faria estava ruim, que a tendência era piorar, e por aí vai. Por quê eu não escolhi o rock pesado?
Seja como for, uma notícia inusitada corta minha torrente de pensamentos. “Um homem visivelmente fora de si, com suas condições psíquicas abaladas, está provocando um congestionamento em Canoas. Ele está no alto de um prédio, vestindo apenas suas cuecas, com uma camiseta numa das mãos.” CINCO GRAUS CÉLSIUS e o cidadão resolve enlouquecer, DE CUECAS, momentos antes de eu cruzar o caminho. Por quê eu não escolhi o rock pesado?
Ciente da situação, e querendo distância do vivente, optei por fazer um caminho alternativo. É, eu sei, caminho alternativo. NUNCA FAÇA UM CAMINHO ALTERNATIVO. É uma coisa óbvia. Óbvia e lógica. O trânsito pode estar PARADO na outra via. Mesmo assim, o seu caminho alternativo levará mais tempo. Isso é lei.
Quanto mais irritado fui ficando, mais me interessava pela história do maluco de cuecas. Aos poucos a rádio foi detalhando a situação, informando que já estavam presentes a Polícia Rodoviária Federal, a Brigada Militar, os Bombeiros, uma ambulância, até a AES Sul estava lá, uma plateia completa. O repórter, que a este momento já acompanhava a situação de perto, começa a gritar: “ele se atirou! Se atirou do segundo andar! Eu vou atrás! Ele escapou dos policiais!” Quase fechei os olhos e imaginei ele chegando para dar o touchdown. Mas se eu fizesse isso bateria no carro da frente.
Eis que outro cidadão conseguiu fazer o que a polícia não fez: deu um encontrão no vivente. Ploft! Caiu no chão. De cuecas. Algemado, de cuecas.
Pronto. Meu caminho estava livre e desimpedido para ir à polícia. E o fato é que, mesmo com toda essa confusão, lá estava eu, às 8h30min, escaneando minhas 10 digitais e sendo fotografado. Mas vamos combinar, a história do cidadão de cuecas é muito mais interessante que a minha passagem pela polícia.
