O mau não distante de mim

Soaram 3 horas da tarde, e apesar do frio, fazia um belo dia lá fora. O mexer de gavetas, o fluxo de pessoas indo e vindo, risadas, conversas. A vida continua.

Minutos mais tarde e onde está o … ? Passam-se horas, e a suspeita de que ele estivesse em uma reunião vai por água abaixo. Ele não se encontrava em nenhuma sala. Nem no banheiro, nem em qualquer lugar. Mas como uma agência de publicidade é lugar de gente louca, a qualquer hora alguém pode sair que poucos poderiam suspeitar de algo errado. Às 17h30min, já na décima reunião do dia, minha chefe, de olhos arregalados, retorna à sala após atender o telefone. “Vou lá ver o … Parece que algo de muito grave aconteceu”.

Três hora antes, o telefone deste meu amigo havia tocado. E, ali, naquele mesmo belo dia, uma voz seca e grave, do outro lado da linha, ordenava:

– Alô …, estamos com a …, a sua mãe, e se você fizer qualquer coisa que não estiver no plano, ela morre. Não desligue em nenhum momento o telefone, vá para um lugar onde não haja ninguém por perto que nós vamos te dar instruções do que tu deves fazer exatamente. Se fizer tudo certinho, nós soltamos a velha e ninguém se machuca; uma bobeada e você nunca mais a verá.

A primeira ordem: Não desligar o telefone. A segunda, sair do trabalho, e ficar num ambiente sem qualquer alma viva por perto. Assim que estas condições foram satisfeitas, um pequeno interrogatório sobre contas bancárias e o esquema se forma. Volta-e-meia uma voz, feminina e abafada, chora no fundo.

O garoto é ordenado a sacar R$ 500,00 em dinheiro vivo no caixa eletrônico do terminal de auto-atendimento do banco, o limite máximo possível. De lá, dirige-se a uma loja de conveniência e compra estes mesmos R$ 500,00 em cartões de celular. Um a um, repassa os códigos ao tratantes.

De lá, o garoto pega o seu carro e vai a uma agência bancária. No terminal consegue sacar mais R$ 1.000,00, que deveriam ser depositados em outro banco, diretamente no caixa, para que a transferência fosse efetivada imediatamente. O número da conta, é anotado em um pedaço de papel. Assim que o dinheiro é entregue ao funcionário do banco, recibo e papel contendo o número da conta são rasgados em migalhas e dispostos em lixeiras públicas.

– Muito bem. Agora que você fez tudo certo, vá até o estacionamento do terceiro andar do shopping e nos aguarde lá. Dentro de 15 minutos você verá um Gol branco se aproximar. Então soltaremos a sua mãe e tudo se acaba. Adeus.

Após quase três horas de conversa, os tratantes desligam o telefone, já com seus R$ 1.500,00 na conta. O garoto, agora livre, liga para sua casa, tentando saber notícias.

– Alô, mãe?! É você? Mas.. Tá tudo bem? Não aconteceu nada? Ahn.. Não, tá tudo certo, tudo bem, depois eu te falo.. Tá tudo bem, mãe, tudo bem..

Minutos mais tarde, ele retorna à agência, os olhos assustados, a aparência exausta e mil e quinhentos reais mais pobre. Dos males o menor, ele havia caído no golpe do celular.

Por mais que algumas atitudes tenham sido tomadas de jeito precipitado, entendo o drama e fiquei muito, mas muito sensibilizado com a história. Ele estava ali, do meu lado, quando a coisa toda se desenrolou. Poderia, sim, ter deixado um recado em sua mesa. Tentado fazer um sinal, não apagar os rastros de suas ações, enfim, houveram muitas falhas em suas atitudes. Qualquer pessoa em sã conciência não teria feito o mesmo. Mas estando diante de uma situação como esta, a simples possibilidade de uma pessoa querida estar sofrendo e você ter, nas mãos, a chance de reverter a situação não pode ser considerada uma situação normal do cotidiano. Impossível e improvável pensar de modo racional numa situação dessa.

É preciso deveras cuidado. O mal pode estar ali, bem diante de nossos olhos, e muitas vezes nem percebemos. Pois gente querendo passar a perna é o que mais tem neste mundo.

Ouvindo: U2 - Bullet the Blue Sky live

Comentários »

  1. Nossa que foda isso!
    Essa noite sonhei contigo, sonhei com o Brasil e com essas coisas de violencia! A gente tava na rua, com a Taty e mais umas gurias do grupo. Tu tava tirando fotos com a digital, quando chega um carinha querendo levar e te ameacando. Tem uns 5 policiais bem pertinho e eu e a Taty falamos p carinha que vamos gritar. Ele nada, a gente grita pela policia, eles olham, riem e dao cobertura pro carinha…
    Sonho estranho… Acho que ando pensando muito na minha volta ao Brasil em outro e tambem no proprio pais com essa copa chegando…
    Beijoos Piter, te cuida e nao atende o cel hein? ;)

    Comentário de kaka — 02.06.2006 às 17:06

  2. que coisa horrível…
    de golpes de cel ainda tem aquele que o cara descobre os teus dados na fila do check in do avião ou no cinema, onde vc não atende o teu cel e ligam pra tua família dizendo que te sequestraram… aí a família tenta ver se vc tá vivo, mas vc não atende o cel…
    por que será que tem tanta gente dá golpes neste mundo? por que tem tanta gente desonesta? por que tem gente que gosta de fazer terrorismo sem sentido?
    bjs

    Comentário de yakuza — 02.06.2006 às 19:33

  3. tentam me passar o golpe essa semana..
    mas foi bem mais leve…
    era pra eu comprar 8 cartoes q depois receberia uns premios..
    tah bom.. com certeza, neh..
    disse q faria e desliguei o telefone, saí de casa e continuei o q tinha em mente antes da ligação.. ;)
    ainda bem q nao foi como esse ali e tb q nao pegaram mesmo a mae dele.. :D

    teh 4a!

    Comentário de Lu — 04.06.2006 às 19:51

  4. é realmente complicado.
    isso já aconteceu com várias pessoas, por mais que agente saiba que ocorre, acho que todos ficaríamos perturbados com uma situação assim, e talvez agiríamos iguais ao seu colega, por medo dessa violência maldita.Que não poupa ninguém até o guitarrista do Detonaltas eles assassinaram, ontem a noite….

    Comentário de daphini — 05.06.2006 às 19:15

  5. É fantástico como eles conseguem usar a critiavidade pra coisas tão sem noção :/

    Comentário de Carla — 06.06.2006 às 21:31

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