Estranha coincidência

Uma lição que floresce no período escolar, embora não caiba à escola ensiná-la nem tampouco coibi-la mas que torna-se prática contumaz de alunos “dés” — desinteressados, desesperados e despreparados: o plágio, vulgo controucê, controuvê.

Já questionava o sábio muito antes do homem aprender a mijar urinar contra a parede: por que reinventar a roda se já foi comprovada sua eficiência? Essa pergunta contém um paradoxo que é importante. Primeiro, é necessário questionar a eficiência e a utilidade daquilo que fazemos, com o intuito de fazer melhor, de inovar. Mas também é preciso contar com a experiência de quem já se deu ao trabalho de desenvolver um método, uma pesquisa, e usá-la como base para criar outra, coisa que, inclusive, temos de recorrer com maior freqüência quando com prazos curtos.

Fazer referência, portanto, é algo corriqueiro e correto. Nada mais justo, porém, citar de quem tiramos tal pensamento. Afinal, só quem sabe o quão trabalhoso é fazer uma pesquisa que compreende a dor de vê-la por aí, atirada às traças na boca de qualquer um.

Isso, porém, só é ensinado à criança ali pelo primeiro ano do Ensino Médio, exagerando na oitava série. Então começam os exercícios. Segundo Pero Vaz de Caminha, ao chegar no Brasil já se encontravam homens “pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas.”, citando a lendária Carta do Descobrimento. Até lá, os pequenos diabinhos baixavam biografias e trabalhos completos de sites do tipo TrabalhosProntos.com, NaMoleza.com, EscolaFacil.com e entregavam bonitinho pra professora. Claro, só havia algum problema caso o aluno esquecesse de retirar a linha do endereço do topo da página. Com isso em mente, não havia com o que se preocupar.

A Internet, de fato tornou-se um problema para isso, facilitando a cópia, reprodução e disseminação de informações numa dimensão nunca antes possível. Hoje, porém, é aliada, já que novos métodos permitem aos doscentes que enviem os trabalhos suspeitos a mecanismos que comparam a fontes na web e indicam um “grau” de originalidade, com base na quantidade de informações coincidentes.

Mas não é só escola que isso ocorre. No meio acadêmico também. Um caso muito sério, e também maquiavelicamente abafado, ocorreu numa dissertação de mestrado da UFRGS que, de fato, conferiu ao copista título de mestre.

Há também a modalidade do “plágio retroativo”, a modalidade mais infame do plágio e da qual fala Eugênio Mohallem no Manual do Estagiário do CCSP. É o caso em que alguém com pouca fama, no caso um estagiário ou estudante de publicidade e propaganda, tem uma ótima idéia, chega a executar a peça mas sem, de fato, publicá-la e, então, alguns meses depois, bem na hora em que ele procura um estágio e aquela é sua jóia preciosa, pimba!, sai um anúncio de página dupla na revista de maior circulação do Brasil, tal como ele havia planejado. Lida, perfeita, criativa e bem executada. Por outro. Como diz Eugênio, é melhor rasgá-la e tratar de fazer algo ainda melhor; por mais que doa, por mais que ele chore e fique se esperneando, não há autoridade suficiente para requisitar sua autoria.

Por experiência própria, adotei a política de não mais enviar trabalhos, relatórios, resumos ou qualquer material a ninguém que eu não conheça de longa data, isto é, em quem eu julgue poder confiar. Simplesmente não dá pra confiar. Não me negarei a ajudar, isso nunca!, mas apontarei caminhos, tentarei explicar. Agora trabalho pronto, há!, jamais!

Certa vez cometi o erro de passar um questionário, já pronto, de um texto denso pra burro com umas 60 páginas que eu levei uma tarde inteira pra ler, e outra tarde inteira para fazer o fichamento e responder. Em síntese: um dia exaustivo de trabalho. Me chega, então, um e-mail: “Pô, Pedro. Dá uma ajuda, cara, não tô conseguindo”. O bom moço que sou vai lá e anexa seu trabalinho, já pronto, ao e-mail e ainda diz “ó, aí está o que consegui fazer. Vê se te ajuda em alguma coisa. Boa sorte!”. Ha!, ainda desejei boa sorte!

Semana seguinte o professor dá os graus e ainda comenta a forte incidência de trabalhos “semelhantes”. Esses, diz ele, não seriam entregues e sendo retidos. Não importava quem teria copiado ou quem forneceu a cópia; ambos teriam zero. Não deu outra. Quando me chamou, entregou a prova, os outros três questionários e “aquele”, justamente “aquele”, não veio. Nota zero.

Pelamord’Deus! O vivente não se dá ao trabalho nem de alterar uma ou outra coisinha. Cópia ipsis literis. É como me disse certo alguém: que amadorismo. Bota amadorismo nisso. Mas eu não sou Lula. Não vou dar minha cara à bater outra vez. Pelo menos não assim.

Comentários »

  1. mas que filho da mãe… tem gente nesse mundo que não dá pra querer vivo… que absurdo… esse aí pretende se formar ou tá ali só pra repassar trabalhos? eu odeio esse tipo de gente que só vai levando a faculdade e nem se importa em aprender… gente burra x2 …

    Comentário de Yakuza — 14.05.2006 às 15:51

  2. Ah, eu te entendo…

    Comentário de Carla — 26.05.2006 às 00:14

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