Os 100 conceitos

Uma cena forte e marcante. Pensei que estavam de brincadeira, mas não. Um lugar maravilhoso para se ir, mas de jeito algum apropriado para quem não tolera diferença. Vamos aos fatos.

A boemia portoalegrense em seu ápice. Entre generais e republicanos, uma profusão de bares, pubs, restaurantes e cafés. A cultura em seu alvorecer constante. Esta é a Cidade Baixa. Um bairro aconchegante com suas árvores formando túneis nas ruas, e sua mistura de raças, estilos e sexos.

Sim meus caros, sexos.

O garoto quase-publicitário precisa estar preparado para falar a todo tipo de público. Inclusive àqueles dos quais não pertence. Ainda assim, cair de pára-quedas numa zona da qual só se ouviu elogios e após duas horas de “vire à direita”, “vire à esquerda”, “ali está a placa”, “já estamos do outro lado da cidade” e “acho que estamos perdidos”, é demasiado confuso. E eu estava lá, considerando-me um mente aberta naquele lugar no mínimo estranho.

Punk rocks. Clubbers. Boys a patys. Hippies e gente normal. Havia de tudo um pouco, mas ainda não era tudo. Foi descendo a gen. Lima e Silva que descobri que não estava preparado psicologicamente para ver aquilo. Eu, o menino que se considerava de mente aberta, tive de fechar os olhos para entender que “aquilo” era normal. Não teve jeito, a mente teve de ser aberta a marretadas.

No começo pensei ser daqueles garotos que querem aparecer. Desses que usam o boné virado 30 graus à esquerda e andam com camiseta rosa com uma marca de surf ou skate bem grande de fora a fora. Pré-conceito não. Pós-conceito, levantado numa pesquisa de campo. Mas não havia boné nem camiseta rosa. Dois garotos normais, abraçados. Isso no Sul não é normal, mas tudo bem, pensei. E mal recuperado de um susto, tomei outro pior ainda.

Outros dois garotos, dali há uns 2 metros, não só abraçados, mas sufocados por um beijo pra lá de caliente. Tive de sacudir a cabeça e olhar de novo para pelo menos ter certeza que eu não estava vendo coisas. Não estava. Não bastasse o balde de água fria, havia mais. Logo ao lado, do outro lado da rua, duas garotas fazendo o mesmo que os garotos. Sim! Homem com homem, mulher com mulher. Bem-vindo à Olaria.

Balancei a cabeça mais uma vez e respirei fundo. Não estava preparado para aquilo, de maneira alguma, mas já era tarde e não podia demonstrar qualquer sintoma de anormalidade. O que eu estava acostumado a ver não era normal. Ali, normal era aquela cena. Olhei para os dois seguranças, vi que estavam estacados no chão com a maior naturalidade e entrei em direção à galeria oposta, fugindo de tudo que havia visto.

Eu realmente não estava preparado.

E foi nessa virada de jogo que descobri a grande sacada do dia. Bamboletras, uma livraria instalada no coração do bairro, com livros de arte, design, filosofia e literatura em geral, num ambiente aconchegante. Fantástica! Respirei em meio às páginas por uns 30 minutos, porém era tarde e precisava partir. Precisava encarar tudo aquilo novamente com a mesma naturalidade e continuar a vida. Entrar em colapso, nem pensar. Hora e local não eram apropriados. Parti.

E percorrendo de volta todas as ruas, revendo os bares e as pessoas é que entendi. Naquele bairro, cada um estava lá apenas por curtir a vida. Amigos se reunem para tomar uma cerveja ouvindo um bom e velho blues, assim como outras tribos se reúnem para uma “drumbera” num café. “Cada um na sua”, como diria o slogan de uma marca de cigarro. Não importa de onde você vem, o que você faz ou é. Simplesmente viva e deixe os outros viver.

Foi realmente uma cena forte e inusitada. Afinal, vivemos numa sociedade deveras machista e conservadora, mas nem por causa disso podemos desrespeitar o direito que cada um tem de viver a sua vida. Este valor interno que carrego comigo materializou-se fortemente naquele dia. Sem respeito não há prosperidade. E em tempos tão confusos, é disso que precisamos.

Fica a dica para quem quiser conhecer um lugar legal. Quem já foi, que relate as experiências e contribua com a descrição de lugares legais. Ah, e pra quem quiser ir, que não deixe de passar na livraria. Vale mesmo a pena.

Comentários »

  1. Que bom q somos seres q conseguimos superar o eu de ontem! E isso vale para tudo tecnologia, conhecimentos gerais e modos de viver!!! E é uma pena q nossa sociedade seja conservadora, pois se não a fosse todas as pessoas poderiam ser como são sem ter o cuidado do lugar onde estão e por isso mesmo como devem agir. Conseqüentemente viveríamos conhecendo todos do modo como são e sem ter, em certos momentos, o espanto como reação!

    Comentário de ACS — 24.04.2006 às 00:10

  2. eu me espantaria tanto quanto você… mas temos culpa? fomos criados assim… temos o receio… a questão não é aceitar ou não… é mais sobre o que nos foi dito… mas fazer o quê… o negócio é se acostumar… a pesar de que eu não gosto de assistir agarrações de nenhum gênero… seja homen-homen, mulher-mulher ou até mesmo homem-mulher… existe hora e lugar pra tudo… se esse aí é um lugar pra isso eu não faço questão de ir… mas cada um, cada um…
    bjs

    Comentário de Princesa de Muitas Graças de Além das Montanhas (Sara) — 24.04.2006 às 00:18

  3. A nossa geração não tem porque se sentir desconfortável com esse tipo de situação, que cada vez fica mais e mais aparente.
    Somos jovens e, por isso, somos rebeldes. Não me entenda mal, mas quando beijamos alguém do nosso mesmo sexo, acho que no fundo só queremos mostrar que esse mundo é nosso agora, e não importa o que os “mais velhos” possam dizer, no futuro, somos nós que vamos ditar as regras.
    E tem mais. Não precisamos ir tão longe para ver cenas como aquelas citadas no texto. Basta dar uma volta pela nossa cidade de noite. Ou ninguém nunca viu, ou conhece, um casal gay?

    Agora eu me reservo o direito de fazer uma só pergunta. O que nós veremos acontecer quando formos os “mais velhos” ?

    Comentário de Gustavo — 24.04.2006 às 00:48

  4. É, a gente tem que se acostumar..
    Quando eu e a Glau fomos pra Febrace, em SP, também passamos por isso.. já que não sabíamos que estávamos num bairro assim..
    mas foi bem divertido! Exceto pelo fato de nós duas andarmos de braços dados para não sermos atacadas lá à noite.. hehe
    mas é legal nos depararmos com situações inesperadas.. :)
    E que tri que tu atualizou também!!! :D
    Bjus

    Comentário de Monica — 25.04.2006 às 19:50

  5. Gracas!!!!!
    News no blog do Piter…
    Quando tu nao escreve fico ateh preocupada! Hehehehe
    Acredita que nunca sai na Cidade Baixa.. e td la eh tao lindo!!
    Te cuida Piter!
    SAUDADES do meu amigaooooo!!
    Bjos

    Comentário de Kaka — 28.04.2006 às 18:09

  6. Só quero salientar algumas coisas:

    “Hippies e gente normal.”

    “O que eu estava acostumado a ver não era normal.”

    “Simplesmente viva e deixe os outros viver.”
    Palavras do Balse
    Meu comentário: gente normal?

    “eu me espantaria tanto quanto você… mas temos culpa?”
    Palavras da Sara
    Meu comentário: sim, temos culpa.

    “Somos jovens e, por isso, somos rebeldes.”
    Palavras do Gustavo
    Meu comentário: Se nós não formos mudar alguma coisa, quem vai?

    “É, a gente tem que se acostumar..
    Quando eu e a Glau fomos pra Febrace, em SP, também passamos por isso.. já que não sabíamos que estávamos num bairro assim..
    mas foi bem divertido!”
    Palavras da Monica
    Meu comentário: A gente não tem que se acostumar, a gente tem que entender que as pessoas são diferentes e respeitar. Só isso. Simples assim.

    Gerando polêmica, quem sabe assim a gente consegue oxigenar o cérebro.

    Beijo

    Comentário de Tina — 30.04.2006 às 00:49

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