Estavam todos felizes demais, tudo era folia. Pulando e andando sem parar, os foliões davam gargalhada e bebiam cerveja em frente ao trio elétrico. No palco, uma banda de pagode, com nome de sambista. Os músicos tocavam funk em ritmo de pagode, pagode em ritmo de samba e samba em ritmo de sei-lá-o-quê.
De tempos em tempos uma espuma branca jorrava para o alto, pintando faces e cabelos dos mais distraídos. “Neve artificial”, era como chamavam. Do outro lado da rua, uma fileira de carros, lado a lado com seus porta-malas abertos explodiam tímpanos com muitos decibéis. Num veículo tocava Calypso. Em seu vizinho, um vaneirão dos bem gaudérios. E logo ao lado um carro soltando o batidão do funk. Só faltava a banda do quartel tocando Beethoven, pois o resto tinha de tudo.
Pula pra cá, pula pra lá, e dois pombos logo se cansaram do pseudo trio elétrico. Resolveram passear, olhando cada banquinha de bugigangas que encontravam pelo caminho. Pararam diante de uma “loja de coisas”, e ficaram olhando um casal de porcos abraçados, em forma de chaveiro. Dali a alguns metros, ele colocaria no pé dela uma correntinha dessas de se pôr no tornozelo, trazendo o sol, a lua e as estrelas para bem perto de sua amada.
Em seguida, pararam diante de uma tenda de anéis. Finos, grossos, de pratas ou não, decorados ou lisos. E na frente a placa:
GRAVAM-SE NOMES
Era a hora. “Moço”, disse o rapaz, já tirando a aliança do dedo, “tens como gravar um nome aqui neste anel?”. “É prata?”, perguntou o baixinho magriço e barbudo que estrava atrás do balcão, “se for posso fazer sim”. “Então toma”, disse o garoto com um enorme sorriso no rosto. “Pode escrever … neste e no dela …”. Minutos após o barulho de máquina de dentista, uns retoques aqui e ali e estava pronto. Daquele momento em diante, o anel de um era de outro, e só do outro, de mais ninguém.
O mar também estava um espetáculo à parte. Apesar de não se poder ver a lua, via-se claramente as ondas trazendo e levando desejos… Ficaram ali, sentados na casinha do salva-vidas, enquanto no fundo continuava o som da festa.
Dois dias mais tarde, a mesma coisa, não fosse um tragédia. Na madrugada, um casal retorna à casa mais cedo e encontra a janela arrombada. TV, DVD, cinco celulares, dinheiro, roupas, malas; tudo fora levado pelos marginais que, calmamente, escolheram o que levariam.
Voltando à cidade, mortes na estrada, a gasolina subiu, o álcool também, e a água, por que não? As escolas fechadas… greve. Mas de que isso importa? É carnaval…