Pessoalzinho do Rio

Eu disse que um dia iria reclamar, e hoje acordei disposto. Mas convenhamos, potranca é lá vernáculo que se dirija a uma mulher? Não, eu pergunto denovo: potranca, olhem bem, potranca é palavra digna para os ouvidos de uma mulher. Não? Ah bom, obrigado.

Ouvindo: Wide Open – The Crystal Method

Ela só queria ser livre

O mais difícil, achava ela, seria conseguir a folga no serviço. Uma semana antes, como havia sido orientada por seu instrutor, conversou com seu chefe e explicou a situação. Olhando para ela fixamente, com seus braços cruzados, as unhas roídas e o suor escorrendo no rosto, ele respondeu:

– Sexta-feira ninguém trabalha mesmo. Só me vê se não me volta desse teste sem uma notícia boa. Também não posso ficar te liberando assim toda hora.

Era a segunda vez que pedia uma folga; a primeira fora para levar o filho doente no médico. Pneumonia, foi o que disse o médico, rabiscando na ficha do garoto. “Toda criança tem um dia, mas é bom cuidar deste garoto. Dê os remédios que vou receitar e qualquer mudança me liga”.

Para não ficar com peso na consciência, foi ao trabalho pela manhã, encontrando grande surpresa de seu chefe, “ué, mas o teste não era hoje?”, perguntou. “Sim, mas prefiri manter minha cabeça ocupada pela manhã, pelo menos. O senhor sabe, fico muito nervosa.” Às 13h30min deveria comparecer ao local do exame. Meio dia e meia ela saía do prédio.

– Meu Deus, onde vou almoçar?

Pegara o ônibus antes de mais nada. Na fome dava um jeito. A meia hora do início estava a duas quadras do local. No caminho, entrou numa lancheira e pediu um xis bacon e uma Coca. Cinco minutos. Dez minutos. Quinze minutos. O relógio voa. A cada segundo ela voltava a cabeça para o balcão, começava a roer as unhas, balançando a perna de nervosa. “Você passou esse tempo todo se preparando, vai dar tudo certo.” Uma hora e 17 minutos, marcava o relógio patrocinado por uma marca de cigarro.

(continua…)

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