Doença de férias

Passam as horas e nada da enfermeira chegar para a troca dos curativos. De plantão no hospital, a família fica ao redor da paciente, tentando satisfazer todos os caprichos. “Mãe, não quer que eu mude o canal de TV?”, pergunta a filha, prestativa. “Não, pode deixar, logo vêm as notícias e eu quero olhar”, responde a mãe. “E tu já leu o jornal que eu te trouxe esta manhã?”, pergunta o marido. “Sim, pode levar. Eu já li todo. Obrigado.”

De súbito entra a enfermeira, uma alemoa enfática, de passos curtos e gestos rápidos. “Está tudo bem?”, pergunta ela, ao mesmo tempo em que confere os dois tubos que gotejavam direto no soro, e marcando o tempo no relógio. Pois é, replica a filha, nós havíamos chamado as enfermeiras há mais de uma hora e ninguém apareceu até agora. Ah!, responde a enfermeira, agora voltada para a paciente e tirando a febre, vocês devem procurar entender que como hoje é sábado — e é natural que amanhã também — nós temos menos enfermeiras em nosso quadro, e é por isso que podemos demorar um pouquinho para aparecer. Mas monitoramos os sinais por computador, e qualquer problema a gente aparece na hora, enfatiza a enfermeira já assinalando um formulário de controle e se dirigindo para a porta. Qualquer coisa é só chamar, diz e bate a porta, correndo para o outro quarto.

Mentalmente, a família inteira, à exceção da enferma, que não via mesmo necessidade nisso, se conectou num só pensamento: “E só por que é fim de semana eu não vou ficar doente ou tenho menos chance de ter um piripaque?” Diabos!

Esta é a realidade de um hospital particular, senhoras e senhores. Onde se paga cada centavo absurdamente caro por cada serviço prestado, do lanchinho no quarto à TV a cabo. Quem dirá de quem depende de um hospital da rede pública, pelo menos aqui em nosso país.

A questão aqui levantada, no entanto, não é discutir as esferas público x privadas, mas sim levantar outra questão: a gente leva a vida que quer levar.

Muitos de meus amigos escolheram a medicina como futuro profissional. Alguns tentam até hoje passar no vestibular de uma universidade federal; outros, poucos, conseguiram a façanha. Mas esta é uma escolha que não envolve só a grana que se põe no bolso, ou o canudo de doutor. Não é isso. Nada é mais cruel, e, conseqüentemente, mais gratificante, do que ter a vida de alguém nas mãos. Uma decisão sua, tomada fora de hora, ou, em excesso e, pronto. Aquele tórax que se enchia de ar ritmicamente desce uma última vez e ali fica, parado. Assim como uma última tentativa desesperada, ou a descoberta de uma combinação de drogas fantástica são capazes de prolongar a vida, de forma saudável, por muitos anos e de muita gente. Daí eu também considero a mais nobre das profissões.

O problema é que quem escolhe ter uma vida assim não tem outra saída a não ser tornar-se refém de seus pacientes. A ter o celular ligado 24h por dia, a mal ter férias, a, enfim, ter uma rotina desgastante.

E aqui estou, com minha garganta inflamada e dolorida, meus 38,5°C de febre e uma tontura “agradável”. E dos 4 médicos que eu entre em contato, dois estão em férias. Um só pode me atender em 3 dias. E o outro só amanhã.

– Mas eu sinto dor!
– Lamento, mas o doutor … não tem mais vaga em sua agenda hoje.
– Sim, mas eu já fui paciente, e estou com esse negócio me encomodando desde sábado!
– Bom, senhor… Nesse caso, gostaria de marcar a consulta para quinta-feira?

Aqui!, Farroupilha!

Antes que os futuros doutores me atirem pedras eu gostaria de esclarecer alguns detalhes importantes: em primeiro lugar, acredito que médico tenha que tirar férias sim, pois, afinal, é uma profissão tão ou até mais estressante como as outras, e isso eu admito. Mas ainda assim, esse período de folga não poderia ser assim, tão descompromissado. Sim, existem as exceções, eu sei! Mas pô!, todos os médicos tinham que tirar folga justamente quando eu fico doente! Assim não há santo que agüente…

Comentários »

  1. Hahahaha
    Olha, eu vim pra ca - USA - pensando: Esse povo se acha tao bom, que as coisas aqui devem funcionar mesmo!
    Ahm, 370 dolares uma consulta no medico… Alem disso tive que esperar 4 horas pra ser atendida!
    Pro cara dizer.. Ahm, eu nao tenho teus exames aqui, marca consulta de novo daqui 3 semanas! Pu@#&^$@)__*%#

    Comentário de Kaka — 13.02.2006 às 23:38

  2. Tendo um pai médico, posso tecer alguns comentários. Médico não tira férias todo ano. Não no Brasil. Isso porque o salário não mais aquele que costumava ser, e faz tempo que se foram os tempos de “vacas gordas.”
    Então, o “Dotô” se submete aos “temíveis” planos de saúde em busca de um rendimento mensal maior. E é, exatamente aí, que mora o problema. É normal estarmos, meu pai e eu, em um encontro familiar - meus pais são divorciados, por isso vejo ele pouco - e o telefone tocar, porque alguma criança se cortou ou alguém, simplesmente, teve o dito “piripaqui.”
    Por esses motivos, não culpe os médicos por tentarem descansar um pouco, depois de noites mal durmidas, causadas pelos plantões. Com certeza, se a saúde pública no Brasil fosse melhor, os médicos e pacientes teriam uma vida mais digna.
    Todos têm o direito de adoecer qualquer época do ano e ser atendidos. Mas isso não tira o direito dos médicos de descansarem. Sejamos complacentes.

    E por acaso, melhoras! :)

    Comentário de Gustavo Leuck — 13.02.2006 às 23:54

  3. Agora li o comentário da Kaka e concordo plenamente. A dita potência mundial não tem direito de ficar doente!

    Comentário de Gustavo Leuck — 13.02.2006 às 23:56

  4. Cara, fiquei aqui, pensativa, e não sei o que dizer. Só sei que o buraco é mais embaixo, muuuito mais embaixo. E isso me preocupa. E eu odeio sentir dor, odeio ficar doente. Certa vez, me receitaram um antibiótico para dor de garganta tão inútil que eu ainda tenho suspeita que aquilo fosse adubo para bactérias. Em uma semana eu estava realmente mal.

    Mas não era exatamente desse buraco que eu falava…

    Comentário de Tina — 14.02.2006 às 01:35

  5. hmmmm é realmente um problema férias de médicos no brasil onde nada funciona direito… aí dá nisso…
    ah, mas os antibióticos são outros quinhentos… meu pai (ele é médico) diz que isso só se receita quando o cara tá podre… muito muito muuuuuito mal… porque? simples! antibiótico mata bactérias, mas quem disse que vai matar todas? e se sobrar uma quer dizer que essa era mais forte que as outras, então ela se espalha com mais facilidade e você tem uma dor de garganta muito maior… mas como o povo que vai no médico com qualquer dorzinha de garganta (o que acredito não ser o seu caso) acha que ele TEM que dar alguma coisa pra “curar” aquilo, os médicos parecem ter se acostumado a receitar antibióticos… quando a melhor coisa era ficar em repouso em casa sem abrir muito a boca…
    e.. que absurdo hein ká! estou realmente pasma…
    melhoras piter!
    bjs

    Comentário de S. Yakuza — 14.02.2006 às 15:33

  6. Bah …olha concordo com a tina .. o buraco é mais em baixo !
    … espero q tu melhore guri !
    bjaum

    Comentário de cris — 18.02.2006 às 18:32

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