Fiz uma limpa nos meus armários. Dessas que se põe até a alma pra fora. Alguns chegaram a pensar que o mundo vinha abaixo. Outros que eu estava de mudanças. A verdade é que não dava mais. O resultado foram várias sacolas, agora atiradas no corredor, esperando para serem recolhidas pelos papeleiros, e alguns ítens pra doação.
No meio dessa encrenca toda, eis que encontro minha antiga caixa de ferramentas. De madeira, feita pelo meu avô, com uma divisória adicionada por mim. Velha infância! Idos tempos em que nela guardava um saco de pregos, um pequeno martelo, alicate e chave de fenda. Qualquer equipamento eletrônico que estragasse passava por minhas mãos, sendo delicadamente destruído.
Com isso lembrei-me de meus planos ultra-secretos hollywoodianos: minha casinha na árvore. A idéia deve ter vindo de algum filme, mas o plano era bom. Cheguei até a fazer projeto, com papel e caneta, indicando onde seria a janela, a entrada, o ponto de luz, a gaveta secreta. Tudo.
O local escolhido era uma uma árvore no centro do pátio. Um frondoso jacarandá. A matéria prima, além de meu cento de pregos, madeiras doadas pelo papai e uma lona preta que serviria de telhado.
E não seria uma casinha qualquer. Essa alimentaria sonhos. Serviria de porta de entrada para muitas experiências. Um lugar só meu, meu, meu. Sem falar na tirolesa que iria da janela do meu quarto à janela da casinha. Sim, para se, no meio da noite, eu precisasse acessar meu quartel general em segredo.
Mas da casinha a única coisa feita foram três tocos de madeiras pregados à árvore que serviam de escada. O mais alto acabou caindo, restando apenas dois, que, dias depois, se foram junto com a árvore. Em uma tarde, meus sonhos foram serrados e arrancados. O barulho da motosserra dilacerava meus planos, deixando a lembrança num enorme buraco no meio da grama.