Façanhas de um herói esquecido

A história de um homem que nasceu na hora certa, mas no local errado. Um padre metido a físico que foi cair justamente no Brasil. E ainda por cima, amava a pátria.

A telegrafia sem fio é a precursora das telecomunicações sem-fio modernas. Antes dela, torres com enormes mecanismos móveis de madeira no topo cumpriam o papel da transmissão de mensagens, nas quais postavam-se homens a observar os sinais da torre mais próxima para copiá-los e retransmiti-los utilizando os mesmos códigos, e assim sucessivamente.

Mas ao contrário do que é visto nos livros de História, a primeira transmissão de telegrafia sem-fio (telegrafia wireless, uau!, que chique!) não ocorreu na Itália por Guglielmo Marconi, mas sim no Brasil, por um padre gaúcho. Pode parecer piada, mas a história é triste.


Roberto Landell nasceu em nossa alegre capital, Porto Alegre, em janeiro de 1861 e estudou em São Leopoldo, com os jesuítas. Mudou-se para o Rio de Janeiro e, a seguir, para Roma, onde além de seguir carreira eclesiástica, ingressou também na Universidade Gregoriana, estudando Física e Química.

Marconi, por sua vez, era péssimo aluno na escola, embora gostasse de desmontar os aparelhos de seu pai. De tanto montar e desmontar criou um artefato que soava uma campainha toda vez que um raio atingisse a região. Foi estudar Física em Livorno e em agosto de 1894. De posse de embasamento teórico, aperfeiçoou seu equipamento de modo que transmitisse sinais incríveis 30 metros, como dali à esquina. Aos poucos a façanha rumou para distâncias cada vez maiores, até conseguir transmiti-los de uma montanha a outra.

Acusado de bruxaria, mudou-se para a Ingleterra em 1896, buscando patentear sua engenhosidade. Obtendo o apoio do governo inglês, pôde desenvolver seus experimentos, permitindo que realizasse a primeira transmissão telegráfica sem-fio entre dois países da História, em março de 1899.

Antes mesmo que Marconi se tornasse um bacharel em Física, Landell, 13 anos mais velho que o italiano, postulava:

“Todo movimento vibratório que até hoje, como no futuro, pode ser transmitido através de um condutor, poderá ser transmitido através de um feixe luminoso; e, por esse mesmo fato, poderá ser transmitido sem o concurso desse agente;”

Em 1894, — observe que Marconi estava a recém iniciando seus estudos — Landell realizou demonstrações de seus experimentos em São Paulo, transmitindo sinais a mais de 8 quilômetros de distância. Ao invés de receber louvores dos moradores e honras do Estado, teve seu laboratório destruído por fiéis que taxaram-no de bruxo. Ainda assim, requereu patente no Brasil, em 1900, de um equipamento transmissor de palavras à distância sem o uso de fios.

No ano seguinte seguiu para os Estados Unidos e obteve mais três patentes: a do telefone sem fio, do telégrafo sem fio e de um transmissor de ondas. O comitê americano, no entanto, exigiu demonstrações dos equipamentos a fim de emitir a patente. Lá foi o sr. Landell, com suas parcas economias, construir modelos experimentais de cada equipamento.

Mesmo recebendo propostas financeiramente interessantes por seus equipamentos, o padre retorna ao Rio de Janeiro e após ceder uma entrevista ao Jornal do Commercio, cria coragem para demonstrar suas experiências ao então Presidente Rodrigues Alves, solicitando dois navios para tal. Negaram-lhe a ajuda, chamando o pobre coitado de maluco, enquanto no velho continente Marconi dispunha de esquadras navais inteiras.

Desolado e desacreditado de suas idéias, prosseguiu como vigário e veio a falecer em 30 de julho de 1928, em sua cidade natal, Porto Alegre. Essa é mais uma triste história de um herói esquecido. Agora vamos torcer para que o Romário faça seu milésimo gol.

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