A missa de domingo
Então fui fazer o que ninguém esperava de um agnóstico: participar de uma missa de natal, na Igreja. Na hora pensei, bom, se eu passar despercebido lá no meio, tudo bem. O problema era a camisa vermelha. E pior, não foi só ela.
Cheguei feliz por ter encontrado um lugar bem ao fundo, onde poderia ficar quieto, escondido. O destino, porém, trouxera mais uma surpresa: “Podes ler a passagem tal, por favor?” Claro! Eita essa minha cara de carvalho.
“Só mais um favorzinho! Senta aqui na frente com a gente.” Pronto, estavam melados meus planos. Na primeira missa de natal que eu vou, eu não só fiquei na segunda fileira, como li algumas passagens nas quais o coro interrompia com um grito uníssono.
Vermelho da cor da camisa saí silenciosamente do palco e sentei-me, contorcendo os braços de vergonha. Dali em diante fiquei mudo, com o rosto grudado no programa do dia.
Aqueles olhos, tão bondosos, no entanto, sabiam que por trás daquela camisa vermelha, havia um garoto diferente dos demais. Eles voltemeia permeavam os meus, tentando decifrar o que eu estava fazendo ali. Não me culpava ou condenava, apenas encarava com supresa meus olhos questionadores.
“Nós acreditamos em Deus, não é mesmo?”, e voltou-se pra mim, olhando em meus olhos. “Vocês acreditam em Deus, NÃO É?”. Só faltou um alfinete cair no outro lado do salão, pois se caísse, eu o escutaria. O coração deu exatas três batidas e baixei os olhos, enquanto todos concordavam com louvor. Fraquejei, tentei abrir a boca, mas já era tarde. Nada saiu.
Naquela hora o programa do dia mais uma vez me salvou. E foi nas entrelinhas que encontrei a salvação. Calado, imóvel, permaneci sentado cumprindo o que todos os outros faziam. Muita coisa estranha, sim, mas quem sou eu para julgar. De louco na história já basta eu.
E não era à toa que aqueles olhos insistiam em me olhar. Eles sabiam que eu voltaria.
