A missa de domingo

Então fui fazer o que ninguém esperava de um agnóstico: participar de uma missa de natal, na Igreja. Na hora pensei, bom, se eu passar despercebido lá no meio, tudo bem. O problema era a camisa vermelha. E pior, não foi só ela.

Cheguei feliz por ter encontrado um lugar bem ao fundo, onde poderia ficar quieto, escondido. O destino, porém, trouxera mais uma surpresa: “Podes ler a passagem tal, por favor?” Claro! Eita essa minha cara de carvalho.

“Só mais um favorzinho! Senta aqui na frente com a gente.” Pronto, estavam melados meus planos. Na primeira missa de natal que eu vou, eu não só fiquei na segunda fileira, como li algumas passagens nas quais o coro interrompia com um grito uníssono.

Vermelho da cor da camisa saí silenciosamente do palco e sentei-me, contorcendo os braços de vergonha. Dali em diante fiquei mudo, com o rosto grudado no programa do dia.

Aqueles olhos, tão bondosos, no entanto, sabiam que por trás daquela camisa vermelha, havia um garoto diferente dos demais. Eles voltemeia permeavam os meus, tentando decifrar o que eu estava fazendo ali. Não me culpava ou condenava, apenas encarava com supresa meus olhos questionadores.

“Nós acreditamos em Deus, não é mesmo?”, e voltou-se pra mim, olhando em meus olhos. “Vocês acreditam em Deus, NÃO É?”. Só faltou um alfinete cair no outro lado do salão, pois se caísse, eu o escutaria. O coração deu exatas três batidas e baixei os olhos, enquanto todos concordavam com louvor. Fraquejei, tentei abrir a boca, mas já era tarde. Nada saiu.

Naquela hora o programa do dia mais uma vez me salvou. E foi nas entrelinhas que encontrei a salvação. Calado, imóvel, permaneci sentado cumprindo o que todos os outros faziam. Muita coisa estranha, sim, mas quem sou eu para julgar. De louco na história já basta eu.

E não era à toa que aqueles olhos insistiam em me olhar. Eles sabiam que eu voltaria.

Natal de 2005

Um dia para esquecer…

Olhos parados

Ela estava na esquina, a mão na boca. Com o olhar fixo no nada, inspirava e expirava aquele cheiro forte. Uma garrafa de água amassada estava dentro de suas calças, sujas como o resto dos trajes.

O cabelo, queimado de sol, pendia sobre seus olhos, parado como o vento em dia de sol quente. A braguilha aberta denunciava a total falta de amor próprio. Inspirava e expirava o cheiro que lhe fazia esquecer a fome. Inspirava e expirava os vapores que saiam de suas mãos calejadas, a fim de afastar o marido que a abandonara com seus 6 filhos pequenos. Inspirava tristeza, expirava desespero. Inspirava dor, expirava resignação. E com seus olhos parados, esquecia da vida.

O grão solitário

Era um feijão, desses grandes, branco. Só que não tinha tempero nem sabor. Os dentes davam conta de cerrá-lo a cada sorriso, a cada beijo, a cada nova garfada.

Fui tentar comer pizza, ainda com o feijão na boca. Mastiguei-o. Três vezes. E a cada mordida, eu sentia tanta dor que meus olhos chegaram a lacrimejar. O refrigerante de cola pouco colaborou, a cada gole mais uma dose homeopática de dor.

Uma afta do tamanho de um feijão. O que o estresse não faz por você…