Um chamado dos céus

Dormindo no sofá, abraçado num anjo, após ter olhado meio filme, eu dormia. Fatigado da semana exaustiva, descansava tranqüilo no lugar que mais me agrada estar. O sono pesado durou até que, de súbito, acordei. Daí então não havia posição confortável. Não sentia frio, nem calor. Virava para um lado, para o outro, puxava as cobertas, tirava. “Amor, eu preciso ir pra casa… Já é tarde”.

Em outra casa, em outro quarto, em outra cama, dormia minha tia, ela de sono leve e preocupado. A campainha do telefone anunciava o mal-presságio.

– Precisamos que algum familhar compareça ao hospital. É um assunto sério, e precisamos tratá-lo pessoalmente.

Desamparada e sem saber o que fazer, ligou para o meu pai, que a tranqülizou. “Fique em casa, te acalma. Nós já estamos indo para aí.” Mal haviam saído e seu filho chegava em casa. A porta de ferro estranhamente encontrava-se trancada. Por sorte estava com a chave no bolso e pude entrar pela porta da frente. A luz acesa no quarto confirmou a dúvida, mas de tão cansado não tive forças para averiguar, segui para a cama e me atirei para um sono profundo. Só iria saber da notícia terrível na manhã seguinte.

Alguns minutos antes, no box 02 da UTI do hospital Moinhos de Vento, ela dava o seu último suspiro. Em seguida, o monitor riscava uma linha reta, contínua, acusando 0 batimentos cardíacos. As enfermeiras corriam desesperadas, iniciavam procedimentos de emergência, mas já era tarde. Às duas horas da madrugada de sexta-feira para sábado, minha vó encontrou seu caminho para o céu. E balbuciara, em meu ouvido, que estava se dirigindo para lá.

Descanse em paz, Lygia. É o que deseja seu neto Pedro.

Mais uma do nosso chefe

Saiu na Folha:

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assistiu a “2 Filhos de Francisco”, indicado do Brasil para concorrer a uma vaga no Oscar, em cópia pirata de DVD. A constatação é da Sony Pictures, distribuidora do filme sobre Zezé Di Camargo e Luciano.

Isso é Brasil!

Desligue a TV!

Sempre um pouco crítico em relação ao que somos submetidos olhando TV — que por excelência é um meio de recepção passiva, no qual tudo vem mastigado, enlatado, sem qualquer necessidade de esforço mental lógico — fiquei interessado com a proposta do site Desligue a TV. Original dos Estados Unidos, o movimento TV-Turnoff Week, fundado em 1994, preocupa-se com a qualidade da televisão e quais benefícios podem nos trazer ao mantê-la desligada.

Interessante. A proposta é justamente questionar um mundo sem televisão, que é plenamente possível, além de estudar a possibilidade de, assim, neste ato de protesto, elevar a qualidade do conteúdo exibido nos canais de TV. Para os fãs da telinha retangular, o site inclui uma lista de 101 coisas que podem ser feitas quando a TV está desligada, a fim de conter o pânico desse grupo. Vale a pena dar uma conferida na lista até pra eventualidades como black-outs e cia. ltda. Confira os primeiros itens da lista:

  1. Ouvir rádio.
  2. Escrever um artigo ou uma história.
  3. Pintar um quadro, mural ou o quarto.
  4. Escrever para o Presidente, seus deputados e seus senadores.
  5. Leia um livro em voz alta, mesmo se não tiver ninguém com você.
  6. Aprender a trocar o óleo ou o pneu do carro.
  7. Concertar alguma coisa.
  8. Escrever uma carta a amigo ou familiar.

Quando foi que você fez uma dessas coisas pela última vez? Faz tempo? Então não seria a hora de fazer um teste e desligar a TV — e, por que não, o computador — por alguns instantes? No site há a lista completa, além de muitas outras informações. Para os interessados, o movimento promoverá um apagão geral de TVs dos dias 24 a 30 de abril de 2006. É longe, mas até lá a mensagem deverá se propagar.

E a chuva cai

Cai a chuva pela janela. Gotejam pensamentos e aflições. Na janela do quarto, o olhar ansioso. Na janela do ônibus, um rostinho cansado.

Em meio a pingos e gosteiras, o relógio se faz de morto. Nem um segundo sequer faz com que o ponteiro se mova. Fica lá, diante dos olhos, estático, imóvel, pálido e frio. A saudade toma conta de um cálido coração pulsante e não há remédio que cure a dor.

Em outro quarto a penumbra toma conta do cubículo. Por um cano, de quatro saquinhos gotejam líquidos em uma veia. A senhora descansa, e os óculos escuros escondem seu olhar terno o dia a fio. A aflição das filhas, a dor do marido, a saudade dos netos. Tudo contribui para uma semana chuvosa.

E por todos os lados, são gotas molhando meus pés. A vida é implacável.

Carpe diem.

Decreto

Definida uma nova data: dia 21 de dezembro, meu dia D. Aguardem, caros convidados. Nesse dia o anfitrião proclamará aos quatro cantos do globo uma grande mudança em sua vida.

Decidi e não volto atrás. É chegada a hora, a decisão foi tomada. Por hora, o que posso revelar é que devo, além de manter cautela e sigilo, cuidar para que tudo transcorra da melhor forma possível.

E tenho dito.

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