Um chamado dos céus
Dormindo no sofá, abraçado num anjo, após ter olhado meio filme, eu dormia. Fatigado da semana exaustiva, descansava tranqüilo no lugar que mais me agrada estar. O sono pesado durou até que, de súbito, acordei. Daí então não havia posição confortável. Não sentia frio, nem calor. Virava para um lado, para o outro, puxava as cobertas, tirava. “Amor, eu preciso ir pra casa… Já é tarde”.
Em outra casa, em outro quarto, em outra cama, dormia minha tia, ela de sono leve e preocupado. A campainha do telefone anunciava o mal-presságio.
– Precisamos que algum familhar compareça ao hospital. É um assunto sério, e precisamos tratá-lo pessoalmente.
Desamparada e sem saber o que fazer, ligou para o meu pai, que a tranqülizou. “Fique em casa, te acalma. Nós já estamos indo para aí.” Mal haviam saído e seu filho chegava em casa. A porta de ferro estranhamente encontrava-se trancada. Por sorte estava com a chave no bolso e pude entrar pela porta da frente. A luz acesa no quarto confirmou a dúvida, mas de tão cansado não tive forças para averiguar, segui para a cama e me atirei para um sono profundo. Só iria saber da notícia terrível na manhã seguinte.
Alguns minutos antes, no box 02 da UTI do hospital Moinhos de Vento, ela dava o seu último suspiro. Em seguida, o monitor riscava uma linha reta, contínua, acusando 0 batimentos cardíacos. As enfermeiras corriam desesperadas, iniciavam procedimentos de emergência, mas já era tarde. Às duas horas da madrugada de sexta-feira para sábado, minha vó encontrou seu caminho para o céu. E balbuciara, em meu ouvido, que estava se dirigindo para lá.
Descanse em paz, Lygia. É o que deseja seu neto Pedro.
