A solidão de uma mente

Então o intelectual pôs-se a ouvir o burburinho, fugindo de seu costume. Habituado a concentrar-se friamente em seus afazeres, decidira prestar atenção no que diziam à sua volta. Assuntos banais, mero cotidiano, rotina, nada de grandes causas ou discussões elaboradas. Apenas breviedades. Foi então que lhe fizeram uma pergunta.

Ela era óbvia, completamente dedutível. De solução tão nítida e fácil. Para ele. O velho e solitário senhor ficou congelado por cerca de dois segundos, matutando se deveria dar forma a seu ímpeto ou se calaria a resposta. Baixou a cabeça e fingiu não ter ouvido aquelas palavras. “Não é possível”, balbuciava para si.

– Seu João, então… Por quê afinal existe essa coisa de ano bissexto?

Coisa! Vocabulário absurdo para um assunto tão simples. E óbvio. Sempre óbvio. Tudo óbvio. “O ano bissexto existe para corrigir uma pequena defasagem entre o tempo solar e o tempo cronológico da terra. Ocorre quadrianualmente, à exceção dos anos divisíveis por 100 mas pelos divisíveis por 400… Mas… Por que afinal de contas eu estou explicando isso a vocês? O que estão ensinando nas escolas?”

Calou-se nesse exato momento e deu as costas ao povo. Optou pela reclusão em seu aposento e lá sentou-se na poltrona ao lado da janela. Ao alcance da mão, puxou um dos 5 livros que lia paralelamente mas não conseguiu se concentrar. “Coisa de ano bissexto… Era só o que me faltava.”

Depositou o livro sobre o parapeito da janela e levantou-se. Andou de um canto ao outro, braços cruzados e cabeça baixa, circundando a cama. Por fim, abandonou o agouro e suspirou, voltando a sentar-se.

E contemplando o pôr do sol lá ficou. Só, somente só. Sentado em sua cadeira de vime.

Deixe um comentário

TrackBack URL