Numa parada de ônibus

O homem e sua família. Malas cheias de roupas — estavam de mudança –, e um jornal amassado debaixo do braço do caçula. O pai, com o pacote recém aberto de Doritos, resolve brincar com o filho, correndo para a outra extremidade da parada. Não vê o degrau diante do seu pé e cai de bruços na escuridão. Com pedaços de salgadinhos por todo o corpo, levanta-se e diz que está tudo bem.

Enquanto isso uma velha senhora observa os transeuntes. Estava em seu mundo, desligada dos demais. Seu amigo, lentamente, foi chegando aos seus pés. Rolou no chão e abanou o rabinho. Era um cachorro, vira-lata preto.

– Quer um ossinho, quer? Tá bom. Eu vou te dar. Olha aqui.

E, falando com o cachorro, revirou suas sacolas de três diferentes supermercados e tirou um grande pedaço de carne. Ali mesmo, com as próprias mãos, partiu o pedaço em dois e deu uma metade ao cachorrinho. Tão faceiro, abocanhou seu presente com tanta voracidade que espantou a velha. Correu, então, para o canteiro central, que dividia a avenida, e lá depositou seu troféu. Cherou o osso por uns instantes e retornou à guarda da senhora.

– O quê? Não quer o osso? Vou dar então pro cachorro da tia Zélia. Ele sim gosta de um osso. Onde é que tá? Onde você colocou? Ih… Ah… Tu quer carinho é… Quer mimo… Pronto, te acalma… Isso, isso… Pronto…

N’outro mundo pareciam estar outros dois. Ele e ela, um casal já na meia-idade, mas com olhares apaixonados de uma adolescência tardia. Abraçados, entre risadas e palavras balbuciadas, um ato que faz com que ela se retraia, sente-se, e esbreveje. Esfregando sua orelha, amoleceu e finalmente conteve-se nos braços de seu amado, apesar de chateada. Provocada, tratou de fazer o mesmo a ele: sofrou fortemente em seu ouvido uma, duas, três vezes, enquanto o homem a abraçava e dava gargalhadas.

– Não dói, não dói. Sopra forte…

Uma hora depois chegaria o Vila Esperança, a fim de não contrariar o ditado que ela é a última que morre. E olha que eu já estava prestes a perder as minhas de pegar um ônibus naquela fatídiga noite de terça-feira.

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