Piter delinqüente
Descendo do ônibus, 09h30min da manhã. Céu azul — de brigadeiro, como diria meu avô –, ar gelado. Olhos inchados de pouco sono, cabelo arrepiado e a cara feia de sempre. E dois policiais à espreita na esquina.
“Bom dia”, disse o homem de farda, desses 2×1, com medidas próximas às de um armário. Respondi ao cumprimento, procurando minha chave na mochila pensando ser apenas uma cordialidade, quando o oficial continua o seu procedimento: “O senhor tem algum documento?”. Naquele momento soube que não poderia fazer piadinhas.
De olhos esbugalados, desviei minha trajetória como um peixe no mar, indo em direção aos dois policiais, já imaginando como deve ser ver o sol nascer quadrado. Com dificuldades para encontrar a carteira, com o casaco no braço e uma garrafa d’água na mochila pra complicar, procurei freneticamente a maldita carteira. Lá estava: CARTEIRA NACIONAL DE HABILITAÇÃO. “Pronto, aqui está.”
O homem puxou um formulário que estava sobre o capô do carro e passou a preenchê-lo. Conferiu os dados do meu documento e perguntou o que eu fazia àquela hora da manhã. “Estou chegando em casa”, respondi. “Chegando em casa… Hmm… E onde tu mora?” interrogou o oficial, fitando-me de cima a baixo. “Aqui nessa rua. Bem ali no meio da quadra.”
Tive os olhos analisados por mais alguns segundos e tive meu documento devolvido. “É só isso?”, perguntei. “Sim, podes ir.”
E por pouco não vou parar no Presídio Central…
Ouvindo: Rage Against the Machine – Killing in the Name (5:14)
