Com a forma na cabeça

Concluir o Ensino Médio é uma experiência inesquecível. Um rito de passagem marcante, consagrado com muita glória e emoção. A partilha dos fiéis amigos, que trilharam, juntos, o mesmo caminho por tanto tempo é algo demasiado doloroso e triste. Aquela noite foi perfeita, não fosse um percalço.

Centenas de olhos atentos ao palco principal, no qual estão os atores principais do evento, perambulam de lado a lado, observando cada movimento, cada deslize, cada gesto dos formandos. Estes vestem seus melhores trajes que, assim como seus rostos, estão impecáveis. A emoção é contida a fim de não borrar a maquiagem. A cada instante, um esforço é feito para não errar o degrau, para não virar o pé ou tropeçar no vizinho, para cumprimentar com a mão correta, olhar para a câmera na hora de pegar o diploma, seguir o protocolo — uma luta constante entre o nervosismo e a precisão.

Minha formatura foi, sem dúvida, um momento inesquecível não só para mim, mas como para todos aqueles que compõem meu círculo de afeto. Minha namorada, meus pais, minha irmã, meus avós, tios e tias, todos orgulhosos de seu garoto.

Não foi para menos. Naquela noite recebi todas as homenagens que não merecia.

O paraninfo de nossa turma teve uma idéia genial. Confiou em mim a tarefa de selecionar algumas das fotos mais marcantes de nossa turma e elaborar uma apresentação para que fosse exibida durante nossa formatura, ao fim desse discurso. A fim de aumentar a expectativa e criar o elemento surpresa, o plano foi mantido em segredo.

Um pecado, no entanto, foi cometido durante a solenidade. Deveria haver uma televisão pela qual os alunos pudessem acompanhar as mesmas imagens exibidas nos telões para a platéia. Deveria haver essa televisão. Não havia televisão alguma.

Pois bem. Seu aluno cumpriu a missão e entregou a fita aos organizadores do evento. Tudo estava certo até o momento da entrada.

De súbito, ainda nos bastidores da festa, começaram a gritar meu nome. O professor, à porta, estava com um olhar aflito e muito triste.

– Pedro, não tem TV para vocês olharem o vídeo.
– Como assim não tem TV? Sempre tem uma TV. O coordenador me garantiu que haveria uma TV disponível!
– Pois é. Mas a TV não está lá.

Uma grande pena. A chave de ouro que seria usada para fechar seu discurso não pôde ser usada, deixando a porta fechar-se apenas com o vento que soprou. Uma dor para ele. Uma dor para mim, que dediquei-me tanto à tarefa. Daquele momento em diante minha noite foi mais triste.

Para quem não pôde ver o vídeo — seja por ter estado no palco junto aos demais formandos, seja por não ter comparecido à solenidade –, eis uma oportunidade para assistir o famoso vídeo, com total exclusividade.

formatura-131-final.avi (13,8 Mb)
AUDIO: 44.1 kHz, MP3 128kbps
VIDEO: MPEG4 480×360 565.3 kbps

Constrangimentos à parte, a noite foi divina, salvo pequenos inconvenientes. E olha que rotular uma noite como maravilhosa mesmo tendo perdido a carteira, o dinheiro, cartões, documentos e o celular, é ter muita confiança no que se diz. Uma noite inesquecível.

Há males que vêm pra bem, p3.

“Como assim não deu?” , perguntava, apreensiva, a avó. “Tem que ver que aquela prova não é fácil”, amenizava o avô. “Calma, meu filho, ano que vem tu tenta denovo”, dizia a mãe. Todos com seus olhos cabisbaixos, não entendendo como o “garoto prodígio” não havia passado no “Vestibular da Federal”.

Deitado no colo de sua amada, milhares de planos traquinavam em sua cabeça. As engrenagens cerebrais giravam à toda velocidade. Após um belo banho de água fria, saiu revigorado, pronto para outra batalha. Adaptado aos acontecimentos, encontrou a paz interior. Há males que vêm pra bem.

Uma questão foi responsável pela minha reprovação. Talvez o título que foi esquecido. Talvez aquela questão foi marcada errada na grade. Talvez aquele conteúdo que deveria ter sido revisado e não foi. Enfim, o que interessa é que uma questão me separou do trigésimo e último classificado, pois fiquei em 31º lugar. E isso não foi ruim.

Acreditem ou não, eu já não estava mais conseguindo enxergar um futuro no qual eu ocupasse um cargo como Engenheiro da Computação, qualquer que fosse o cargo. Toda vez que me questionavam sobre meus planos para o futuro, tal exercício implicava um grande constrangimento. Duas certezas eu tinha: eu seria rico, mas não estaria fazendo o que gosto.

Dinheiro é bom, sim. Mas não é tudo na vida.

Caso eu tivesse sido aprovado no concurso, eu estaria contente por ter meu nome no jornal e por poder dizer que sou o único membro na família que passou na Universidade Federal. Ah sim, eu ficaria contente em dizer isso — ego desgraçado. Por outro lado, eu estaria descontente por estar entrando um curso que eu não aproveitaria com entusiasmo, ficaria com os piores horários (o último colocado sujeita-se aos horários que sobram dos demais), teria o curso de minha vida totalmente alterado e, por fim, tiraria a vaga de um vestibulando que quer o curso e, além disso, preparou-se para garantir sua vaga, o que não foi de forma alguma o meu caso.

Agora reitero: reprovação é um bixo de sete cabeças? Sem dúvida que não.

Passado o susto fiquei contente por tudo ter se encaminhado da forma que ocorreu. A segurança de minha vida, a qual pareceu estar ausente durante o período de provas, voltou com força total. Tenho certeza que o importante mesmo é escolher uma carreira que me satisfaça plenamente, na qual eu esteja feliz com o que esteja fazendo. Por mais saturado que esteja o mercado, por menor que seja a remuneração, existe, sem dúvida, espaço para profissionais dedicados e competentes, os quais serão responsáveis pelo futuro de nossa nação. E, para isso, basta ter força de vontade.

E isso, meus caros, eu tenho de sobra.

Ouvindo: Semisonic - Secret Smile (4:40)

Há males que vêm pra bem, p2.

Deitado na rede, repousando por pouco ter dormido na noite anterior e também pelo dia quente e pela cansativa viagem de ônibus e trem até minha casa (o que consumia, em média, umas duas horas), terminei a leitura da obra “O Código Da Vinci”, a qual havia recebido como presente de formatura. Feliz por tê-la acabado e pensando na vida, digo, em minha amada, viajei por entre sonhos e desejos. Só então, quando retornei à Terra, é que tive a visão do inferno.

Pedro Augusto Balsemão esqueceu de colocar o título em sua redação.

Na hora fiquei feliz. “Oba! Posso ir pra praia amanhã mesmo!” Discutindo este relevante assunto com alguns amigos, logo foi informado que não colocar título não era critério para zerar a redação. Detalhe: caso isso acontecesse, eu estaria automaticamente eliminado do concurso. Os amigos estavam certos.

Quarto dia de prova. Recebi, de bom grado, as provas de Química e Inglês. O curso de Inglês que fiz durante a infância teve seu valor reconhecido durante a prova, conferindo-me segurança para obter um excelente desempenho. Pena que não fiz um curso de Química também…

Quinto e último dia de prova — as temidas provas de Física e Geografia. Após concluí-las, era só almoçar e rumar para o litoral gaúcho. Malas e mochilas já estavam prontas, aguardando-me desde a tarde de quarta-feira.

Em plena Freeway, sintonizei o rádio e anotei o gabarito da prova no verso da mesma. Finda a tarefa, passei a verificá-lo. Um excepcional desempenho em Física e também em Geografia surpreendeu-me, pegando este rapaz despreparado. Ao saber do resultado, mãe, irmã e genro ficaram contentes com minha pré-aprovação. Minha irmã já sonhava em poder fazer mais cadeiras visto que minhas despesas com ensino passariam a ser praticamente nulas.

A melhor parte do dia chegou quando reencontrei minha amada. Pena que tal reencontro não seja propício para um relato como este que vos faço.

Os dias passaram e no dia vinte de janeiro, acordo com a notícia que o gabarito seria divulgado naquele mesmo dia. Visito pela primeira vez o Cybercafé da praia de Curumim e acabdo descobrindo, às 15 horas, que a notícia que todos aguardavam só seria divulgada mais tarde, às 18h.

Após a longa espera, voltamos ao recinto. Tão ansiosa quanto quem estava de olhos vendados, minha garota tapou meus olhos e disse que ela queria receber a notícia primeiro. Nada melhor do que receber boas notícias de quem a gente ama.

Senti sua mão movimentar o mouse para baixo. Então sua mão ficou dormente. Por fim, o mouse foi levado para cima e uma sucessão de cliques foi ouvida. O silêncio era grande.

– Deve haver algum erro aqui. Teu nome não está na lista.

Finalmente uma boa notícia.

Ouvindo: Coldplay — The Scientist (5:09)

Há males que vêm pra bem, p1.

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul possui reconhecimento nacional por ser um excelente centro de Ensino Superior. Seu Concurso Vestibular é o mais concorrido do estado, tanto pelo fato de ser uma universidade gratuita, como por qualificar excelentes profissionais. Sendo assim, apenas os alunos mais bem preparados são selecionados para fazer parte das turmas da universidade. Afinal, são mais de 43.000 inscritos lutando por 4.300 vagas.

Inscrito para concorrer para uma vaga em Engenharia da Computação, o 9º curso mais concorrido e cuja densidade era de 18,3 candidatos por vaga, iniciei minha rotina de estudos pré-vestibular: não lia nenhuma leitura obrigatória, passava as tardes fora de casa e, quando sobrava um tempinho, desperdiçava no computador. Ou seja: revisão que é bom, nada.

Meus pais, preocupados e ansiosos em estarem livres de despesas educacionais por um bocado de tempo, investiam toda a bajulação que dispunham em seu filhinho querido. Mamãe fez questão de levantar cedo para preparar um café da manhã reforçado todos os dias. O pai, mesmo tendo que trabalhar duro durante a manhã, atrasava-se para poder seu filho ao local da prova.

Levantando todos os dias de calor infernal pontualmente às 6 horas da manhã, eu iniciava minha rotina exaustiva de vestibulando. Enfrentava uma monótona viagem de uma hora até à escola na qual era realizada a prova, esperava a abertura dos portões, entregava a carteira de identidade e ficava esperando, numa abarrotada sala de aula, pelo início das provas.

E meu amor na praia.

A rotina parecia-se com a música do Seu Jorge. “Todo dia ela faz tudo sempre igual / me sacode às seis horas da manhã”. Pois é. Entregues os cadernos de questões, lá estava eu, debruçado diante das mesmas, esquentando a cabeça para resolvê-las. A todo instante, pensamentos como “eu me lembro de ter ouvido isso, mas não me lembro mais como é que se faz” passavam por minha cabeça.

No primeiro dia de prova — um domingo, minha gente, um domingo! Onde já se viu? –, Biologia e História, fui um completo desastre, façanha que repetir-se-ia no dia seguinte não fosse a prova de Matemática, na qual me saí muito bem — muito embora a de Literatura tenha sido um total desastre. Na terça-feira, terceiro dia de prova, cometi as duas maiores proezas que um vestibulando poderia cometer. Ao preencher a grade, cansado da desgastante prova de Língua Portuguesa, marquei uma questão de forma incorreta.

À caneta.

Passado o acesso de raiva inicial, preenchi as outras questões e livrei-me das folhas de respostas assim que pude. Tal erro deixou-me deveras frustrado. Na hora pensei: esse erro pode ser responsável por minha reprovação.

Ouvindo: Jack Johnson — Taylor (3:59)

Correio dos céus

Uma leve brisa sopra a seu ouvido quando a menina leva seu olhar aos céus, trazendo consigo um susurro muito distante, vindo de um garoto por ela apaixonado. O vento dizia “menina, sinto tua falta! Estou chegando. Por favor, me espera! A saudade nos machuca, mas não há doença que nosso amor não cure. Lute por ele!”

A menina, então, ouviu o recado e sorriu. As lembranças daquele rapaz vieram a seu coração.

Encantada com o efeito mágico das estrelas, a menina enviou seu recado ao garoto. De novo, a mensagem viajou uma distância enorme, carregada de seus sentimentos e perfume. Rompeu, enfim, em lágrimas, pois a dor em seu peito era grande. Ele sentiu a pontada de dor em seu coração e desejou que ela não mais sofresse, pois uma alma tão especial não era digna de tal sofrimento.

A mensagem chegou até ele e, com o coração fervente, aflito, chorou de felicidade ao senti-la mais uma vez. A menina sabia exatamente como expulsar a dor que ele sentia.

Ouvindo: The Matrix Revolutions OST — Men in Metal (2:18)