O velhinho safado
Andando pelo trem observei aquele casal apaixonado. Ambos de jaqueta de couro em pleno típico dia de verão na primavera, aquele bafo quente de 35°C preenchendo o vagão. O rapaz, servindo de travesseiro para a garota, observava, através da janela, as casas passando rapidamente por suas vistas.
Seus olhos vagavam da menina para o chão, do chão para a menina. Da garota para a janela, da janela para a parede, da parede para a garota. Da garota para a parede mais uma vez. De repente, depara-se com um pequeno armário. Não há tranca, não há lacre. Apenas uma fechadura.
O rapaz, curioso, atento à caixinha, abre a porta e percebe uma alavanca vermelha em seu interior. Qual seria sua serventia? Por que era tão fácil era manipulá-la?
Por alguns minutos o garoto da jaqueta de couro, travesseiro de sua namorada, pensou. Pensou se deveria ou não puxar aquela curiosa alavanca e dar asas à sua imaginação. Olhou mais uma vez, pesou as conseqüências por alguns instantes e levou a mão até à caixinha. Fechou a porta e a deixou como a encontrara.
E se, o menino não tivesse contido seu ínfimo desejo de descobrir o final daquela história? Foi então que o velhinho entrou na história.
Um senhor de idade, trajando roupas confortáveis. Uma bermuda, uma camisa e sandálias. Ele também olhava pela janela, observava, com dificuldade, muitas coisas passando, as quais não conseguia processar na velocidade com que passavam. Aquele velhinho, com um quê de despreocupado aparentava ser um bom cidadão. Quem suspeitaria de um velhinho inocente?
Que divertido seria se o velhinho tivesse pensado na visão que tive. Quem suspeitaria de um velhinho inocente? Após a saída do garoto, aquele da jaqueta de couro, o velhinho levantar-se-ia rumo àquela caixinha da alavanca vermelha e ficaria dependurado nela. Mas não ficaria contente somente com isso. Puxaria uma, duas, três, cinco vezes, até sentir-se satisfeito com o efeito.
Muitas vezes nos supreendemos com ações inesperadas de pessoas acima de qualquer suspeita. É a vida dando voltas e nos pegando desprevinidos na retaguarda. É necessário estar sempre preparado, por mais seguro que se esteja, das ações e reações alheias e até mesmo aquelas que vindas de nós, em momentos cujo despreparo resulta surpresas.
Quem suspeitaria, porém, de um velhinho inocente?
Ouvindo: Dream Theater - Goodnight Kiss
