Feriadão
A previsão do tempo era animadora. D. Luíza já havia arrumado as malas e preparado o lanche. Deixaram a comida do cachorro com o vizinho e os filhos, Mateus, Douglas e Marcos, já estavam de banho tomado, aguardando anciosamente seu pai chegar do trabalho.
Eis que o João chega, cansado de uma semana de trabalho pesado e mal remunerado, em sua casa. Encosta o carro de ré, abre o porta malas e, enquanto tomava um banho, sua mulher e filhos levavam as poucas sacolas até o carro. As crianças acomodaram-se no banco traseiro, disputando quem ficaria na janela.
— Tudo pronto?, perguntou João. A mulher confirmou, chaveando a porta de casa. O cachorro pressentina o desaparecimento dos donos. Estava inquieto, debatendo-se, ganindo e saltando de um lado pro outro. O pai penteou o cabelo em frente ao espelho retrovisor, conferiu os documentos, o dinheiro da semana, a chave da casa. Tudo pronto.
Pegaram uma estrada cheia, movimentada. O calor deixava as crianças irritadas e o pai, já cansado por ter trabalhado, estava sem paciência para aturar suas peraltices. Foram parados pela Polícia Rodoviária Federal no meio do caminho, talvez pela idade do carro. Conferiram tudo: da luz de freio ao extintor de incêndio. Felizmente o carro estava em dia, sem nenhum problema.
Após duas horas e meia de viagem, chegaram ao seu destino: a casa da praia. Enfim esticaram as pernas, olharam para o pátio cheio de folhas, a grama batendo na cintura de D. Luíza; mais trabalho pela frente para o já exausto João.
As crianças saíram correndo, entretidas com a paisagem que não viam havia meses. Andaram, desbravando a grama, até que viram a porta do fundos entreaberta. Pai!, tem gente!, gritou Douglas.
João e Luíza arregalaram os olhos e um temor tomou-os de súbito.
— Que foi que você disse meu filho?, disse o pai.
— Não brinque com essas coisas Douglas!, revidou a mãe.
— Mas é verdade. Olha, tá aberto!, disse o menor.
O chefe da família tomou frente e confirmou o pior: haviam arrombado sua casa. Luíza, pega as crianças e vai pro carro!, gritou. Voltou ao carro, pegou um taco de madeira e uma lanterna que deixava debaixo do banco e voltou à casa. Abriu a porta devagar e aos poucos a tragédia foi se revelando com a luz trêmula da lanterna. O taco caira de sua mão.
Armários e gavetas estavam abertos, revirados. No chão cacos de vidro, objetos jogados aleatoriamente. Caminhou até os quartos. Além de terem levado os ventiladores, cortam os colchões à faca.
Na sala não havia mais TV, que daria lugar a um velho baralho de cartas. Da cozinha só não levaram o antigo *Frigider* azul. Até mesmo o microondas, cuja última prestação estava por vencer foi roubado. Nem mesmo a máquina de cortar grama escapara. A pilha de livros, porém, permanecia intocada.
Não havia justificativa cabível para explicar o que sucedera-se naquele lugar. João, com os olhos úmidos, não sabia como contar a notícia à sua família. Baixou a cabeça e encostou-se na parede. Restava saber, agora, onde passariam a noite. O cachorro parecia ter pressentido o ocorrido.
Ouvindo: Rhapsody – Sacred Power of Ranging Winds
