Lua cheia
Não sei se era a lua quem olhava para mim ou eu que olhava para ela. A clara sensação de estar sendo vigiado por olhos ríspidos naquele descampado dave-me a impressão que era ela quem estava me observando, com seus negros olhos brilhantes.
Era ela quem olhava para a lua ou a lua quem olhava para ela? Ambas não saíam de minha cabeça. O lápis tremulava na mesa, lembrando-me de meu dever, embora logo caísse sobre os papéis que estavam dispostos na mesa e rolava por entre letras e anotações. Aquele olhar despertava meu interesse, desviando minha atenção de frases dispersas.
Com os olhos fixos, voltados àquela imagem alva perdida entre nuvens e uma imensidão azul, buscava vislumbrar o seu semblante mais uma vez, como uma lufada de esperança. Nada, nem mesmo um sussurro vindo de seus lábios, num tom angelical trazido pelos distantes ventos. Apenas a lembrança de seus modos delicados, seus traços de beleza incomparável, seus longos e negros cabelos esvoaçando.
A lua olhava para mim e eu olhava para a lua. Estaria ela olhando também? Uma remota esperança, porém, dizia que sim. E graças a isso, meu coração batia lépido e faceiro. Uma lembrança sua: bastava isso para estar contente.
Ouvindo: Slovak Philarmonic Orchestra – Gerswhin – Rhapsody in Blue (16:34)
