Volta por cima

Há uns 5 anos, quando este rapaz que vos fala tinha seus 13 anos, ele foi à sua primeira consulta ao oftalmologista — oculista, segundo alguns. Durante a consulta estavam presentes sua mãe e sua irmã, ambas perturbadas com o fato de o menino passar horas e mais horas em frente ao seu computador.

Primeiro observou sua irmã fazendo o teste de visão. Tentou decorar, em vão, as letras, mas ao ouvir a ordem do médico de repetir aquele alfabeto desordenado de trás para frente, seu plano diabólico de trapacear fora por água abaixo.

Sentou na cadeira fofinha que possuía uma máscara cheia de graus e lentes, regulagens e botões, e sentiu uma luz forte, alva, cegando-lhe as vistas. Observou as primeiras letras, essas grandes e bem delineadas e disse com clareza: “N e E”. Passou à próxima etapa, à próxima até que as letras começaram a embaralhar. P virou B, R virou P, E virou F, uma confusão. O médico balbuciou seu veredito e mandou a alegre família sentar-se. O rapaz, porém, vacilou e ficou nervoso com seu desempenho.

— Mãe: Pois é Jeferson. Ele passa horas e horas na frente daquele computador.
— Médico: E quanto tempo são horas e horas, meu jovem?
— Rapaz: Olha… Acho que talvez umas 6 horas seguidas, num fim-de-semana…
— Irmã: Seis horas?! Ha! Seis horas é fichinha! Tu chega a passar dez horas na frente daquela tela!
— Médico: Dez horas?
— Rapaz: Err… Bom, digamos que… É, uma vez ou outra isso já aconteceu. Mas não é todo dia… Aliás, é muito raro!
— Médico: Usando o computador assim tu estará usando óculos quando tiveres teus 15, 16 anos. Pode acreditar. Vamos, venha aqui que eu vou te ensinar alguns exercícios que tu podes fazer para reduzir os efeitos…

Os exercícios nada mais eram que pausas regulares de um minuto a cada hora de uso de computador, bastando manter as pálpebras fechadas. Lembrar-se de fazer isto com disciplina, porém, era uma tarefa demasiada difícil. Interromper uma leitura interessante? Perder alguns segundos de jogatina? Desconcentrar-se de um código fonte? Difícil…

Cinco anos depois, volta o menino ao mesmo médico que lhe dera a sentença aterrorizante. “Com 16 anos você estará usando óculos. Dezesseis anos! 16, 16, 16!! Óculos, óculos, óculos!! Aos 16, 16.. Hua ha ha ha haaaa”.

Volta ao consultório sem medo das antes desgraçadas lentes. Durante o período sem consultá-lo, passou até mesmo a apreciá-las. Após ver como ficaram lindos os óculos em sua amada, realçando seus belos olhos negros que ele tanto adorava, assim como o modo que brilhavam, perdeu todo e qualquer medo. Óculos são legais.

Preparado para qualquer sentença, conversou com o senhor da ciência dos olhos, falou do pai, da mãe e lá foi ele à antiga cadeira, a mesma de antes, com as mesmas lentes e ajustes. Agora, no entanto, não lhe causava mais medo; estava pronto para qualquer ocasião. Leu as letras, foi até a última etapa e, desta vez não confundiu nenhuma letra. Nem mesmo com o outro olho, sem mesmo ter de decorar a seqüência, repetindo-na ao contrário, de baixo para cima como lhe fora pedido.

Saindo da cadeira, passou ainda por outros dois instrumentos modernos e curiosos. Olha daqui, ajusta dali, luzes e mais luzes e eis que chega a hora da avaliação final.

— Bom, Pedro… Tu tiveste uma conjuntivite, mas teus olhos já estão bons.
— Ah, isso é muito bom. Mas e os olhos? Nada? Nada de óculos?
— Hahaha. Não, meu jovem. Quanto a isso não tens que te preocupar. Tua visão está perfeita!

A última frase levou alguns 30 segundos para ser digerida pelo cérebro. “Nada de óculos”. Já havia avisado a todos os seus amigos que em breve estaria com a armação em frente ao seu rosto. Combinara com sua namorada de marcar um dia para escolher os óculos e… Bom, nada disso foi preciso. Sua visão estava perfeita.

Viva as cenouras!

Ouvindo: Nenhum de Nós – Eu não entendo (4:16)

Comentários »

  1. Viva as cenouras mesmo.. eu sim fiz uma pesquisa científica com elas, hehehe. Só que era com álcool também.. :)

    Comentário de MonikitA — 20.10.2004 às 21:05

  2. Hah, cai na vida dos óculos aos 12. Hoje meu rosto não tem sentido sem ele.

    Comentário de David — 21.10.2004 às 11:40

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