O castigo

Duas crianças. Brincavam felizes no pátio da escolinha, sorridentes, alegres. Era um dia bonito de setembro, manhã de sol agradável.

Seus amiguinhos passavam por debaixo do túnel de concreto. Outros voavam no balanço, tentando alcançar o céu com seu impulso. Um grupinho reunia-se no topo da casinha de madeira, discutindo, compenetrados, questões importantes, grandes enigmas da vida. Alguns aventureiros tentavam entender por que aquela areia não permitia a construção de castelos.

Os dois, porém, brincavam na gangorra. Ela decidiu irritá-lo, provocá-lo. Deixou-o de castigo. Firmou a gangorra para o seu lado e ficou sentada olhando com cara de desaforada para ele.

— Me solta, me solta! Eu quero descer!
— Não. Vai ficar aí de castigo. Só desce quando eu mandar!
— Me larga, por favor! Não quero mais brincar!
— Já disse que não.

O menino, revoltado, decidiu por um fim à história. Já estava demasiado irritado com a menina, e começou a livrar-se da armadilha. Era alto demais para pular de pé. Inclinou-se, virou seu corpo e colocou o braço abaixo do acento da gangorra para poder soltar-se e aterrisar em segurança. Foi então que ela começou a descer.

O movimento foi brusco. E rápido. Num piscar de olhos, o menino tinha todo o peso de seu corpo sobre seu braço magricelo e frágil. Preso, sem conseguir mover-se, só tinha uma coisa a fazer: chorou. Chorou e tudo à sua volta foi ficando claro, claro, até ver somente vultos brancos à sua volta.

Ao abrir os olhos, estava ao lado de sua professora, na lomba da saída da escolhinha. De longe reconheceu a figura que vinha ao seu encontro. Seu pai, preocupado, chocado, aterrorisado. Nunca mais esquecera aquela cara de pânico. Já não sentia mais dor, mas continuava chorando. A fratura se foi em alguns dias tendo seu braço engessado. A cara de espanto do pai, no entando, nunca mais esquecera.

Olhe por onde ando

Dirigir um veículo automotor é um exercício deveras complicado. Como todo cidadão urbano, um carro com transmissão manual possui três pedais: embreagem, freio e acelerador. Para a desgraça dos *nerds*, portanto, não basta somente acelerar e frear como num Need for Speed, mas também há esse pedalzinho muito importante que felizmente inexiste nos carros automáticos.

Pois bem. Enfiar um pé tamanho 43 num cubículo na frente do veículo não é uma tarefa fácil. Além disso, os pés não só devem ficar acondicionados no cubículo como o calcanhar fixo à base, alternando de um pedal para o outro (ou para o descanso). Não fosse somente o fato de enfiarem mais um pedal para controlar o carro, a sensibilidade do mesmo é algo extraordinário. É necessário fazer com calma, devagarinho, para que o carro não afogue.

E o que dizer dos modos de arrancada? A cada mudança de 15° no ângulo de inclinação do plano há um tipo de arrancada. Com freio, sem freio, segurando na embreagem, acelerando, ihh, uma loucura!

Para complicar ainda mais, há a sinalização. Pisca direito, pisca esquerdo. Vai fazer curva? Pisca! Desviar? Pisca! Voltar? Pisca! Pisca! Pisca! Chovendo? Luz baixa. Em rodovia sem ninguém por perto? Luz alta!

Embreagem, pára e anda, pisca-pisca. Tudo isso até dá pra fazer ao mesmo tempo. Prestar atenção aos três espelhos retrovisores, porém, já é pedir demais! Quem dirá estar atento às condições da pista, aos pedestres, aos ciclistas e aos demais condutores? Por favor! Se alguém me vir dirigindo um carro por aí eu só tenho um conselho a dizer: **CORRA!**

Ouvindo: Square Heads - Happy (3:59)

Lua cheia

Não sei se era a lua quem olhava para mim ou eu que olhava para ela. A clara sensação de estar sendo vigiado por olhos ríspidos naquele descampado dave-me a impressão que era ela quem estava me observando, com seus negros olhos brilhantes.

Era ela quem olhava para a lua ou a lua quem olhava para ela? Ambas não saíam de minha cabeça. O lápis tremulava na mesa, lembrando-me de meu dever, embora logo caísse sobre os papéis que estavam dispostos na mesa e rolava por entre letras e anotações. Aquele olhar despertava meu interesse, desviando minha atenção de frases dispersas.

Com os olhos fixos, voltados àquela imagem alva perdida entre nuvens e uma imensidão azul, buscava vislumbrar o seu semblante mais uma vez, como uma lufada de esperança. Nada, nem mesmo um sussurro vindo de seus lábios, num tom angelical trazido pelos distantes ventos. Apenas a lembrança de seus modos delicados, seus traços de beleza incomparável, seus longos e negros cabelos esvoaçando.

A lua olhava para mim e eu olhava para a lua. Estaria ela olhando também? Uma remota esperança, porém, dizia que sim. E graças a isso, meu coração batia lépido e faceiro. Uma lembrança sua: bastava isso para estar contente.

Ouvindo: Slovak Philarmonic Orchestra - Gerswhin - Rhapsody in Blue (16:34)

Pé frio

Sábado foi dia de futebol. Meu pai e eu, na companhia de dois amigos, fomos assistir ao clássico GreNal no estádio Olímpico Monumental, a casa do meu time de coração. Fomos até à capital, almoçamos no shopping center e fomos ao estádio de taxi. O primeiro sinal de tragédia já estava nos céus: chuva forte.

Ao chegar no estádio, dirigimo-nos às bilheterias de sempre. O lugar, porém, estava envolvido por uma atmosfera diferente. Comecei a achar estranho que só havia pessoas vestindo camisetas do Internacional; aquele mar vermelho tomando conta da casa do Grêmio. Estando já cercado por torcedores do oponente, vestindo a camiseta do Grêmio, é que tive a brilhante visão:

Bilheteria — Visitante

Puxa vida, já era tarde. Felizmente conseguimos os quatro últimos ingressos para a cadeira central com um cambista simpático que não cobrou muito por seus ingressos. Meu pai, observando a placa “Cadeira Central” correu para o portão, foi revistado pelos brigadianos e seguiu seu caminho, subindo a rampa de acesso. Ao revistar meu amigo, o qual também estava vestindo a camiseta do tricolor foi interpelado pelo policial:

— Tens certeza que vai vestido assim aí? Aqui é a torcida do Inter…

No exato momento soltei o meu mais alto **PAI!** até que ele ouviu e perguntou o que havia acontecido. Perguntamos ao segurança qual era o portão correto e fomos até ele. Revistados e empolgados fomos às cadeiras: dois gremistas e dois colorados, lado a lado, preparados para a batalha.

Ao entrar em um estádio de futebol, sentimentos diversos tomam conta do vivente. O clima contagiante invoca-lhe a bradar gritos contra a torcida do oponente, surge um orgulho pelo hino do time, uma vontade de tremular a bandeira como se alguém fosse reparar em seu ato de adoração à camisa. Não, todos estão mais preocupados com o preço da cerveja do que com qualquer outra coisa.

Antes mesmo do jogo começar a brigada se viu na obrigação de intervir na torcida rival, valendo-se de força bruta para acalmá-los. Um fiasco. Os rebeldes foram expulsos sob forte aplauso gremista. Horrível, no entanto, foi o vexame da torcida geral. Nos primeiros minutos de jogo, criou-se um tumulto sem noção, fazendo com que um pelotão de Homens de Preto — os seguranças — invadissem e normalizassem a situação.

Confirmando o sábio dito popular que violência só gera violência, a tentativa de pôr ordem no galinheiro foi um fracasso. A torcida cercou os seguranças e um deles foi espancado pelos torcedores. Era uma troca de socos e pontapés que perdurou por longos 5 minutos, tirando minha total concentração do jogo, até que os brigadianos entraram em ação usando seus cacetetes em quem bem entendesse. Muita gente saiu ferida, e um número maior ainda foi preso. Baderneiro tem que ir é pro xadrez mesmo; tem que ver o sol nascer quadrado, fazendo com que reflita um pouco mais sobre a vida — se é que algum dia um ser desses já parou para pensar.

Estando em posse de todo o meu vasto conhecimento futebolístico, posso dizer meu time esteve melhor em campo na primeira etapa regulamentar do jogo. Atacou, contra-atacou, defendeu bem, não errou passes, enfim, fez uma bela partida até a expulsão de Claudiomiro. A partir daí foi um fracasso total.

Os jogadores entraram no segundo tempo desanimados, cabisbaixos e sem reação. Força de vontade é algo difícil de se encontrar no fundo da tabela de classificação. Sendo assim, o time adversário abriu o placar marcando um gol ridículo, um bate e volta na área que a torcida toda calou-se tentando entender o que ocorria. Sim, estava aberta a temporada de caça. O Internacional marcava seu primeiro gol.

A esse ponto, a torcida adversária silenciava o estádio, tomando conta do público. Eis que vem o segundo gol, o qual incitou a saída dos torcedores, indignados, do estádio. E foi só esperar mais um pouco para que viesse o terceiro gol, levando consigo o pouco dos torcedores que ainda permaneciam no estádio. O único gol do Grêmio passou despercebido por seus torcedores, como se fizesse alguma diferença.

Acabado o jogo, mais confusão na geral. Pedras, e pedaços de pau começaram a ser arremessados no campo. Não demorou muito para que placares publicitários fossem arrancados e arremessados também. Logo mais, tampas de vasos sanitários e não demorou para que até panelas voassem no campo. Sem falar em dois carrinhos de pipoqueiros que foram destruídos e, um deles, atirado no fosso de proteção. Um caos completo. Estupefato, assisti à cena dependurado na arquibancada, sob chuva e uma cara de tristeza. Perdemos em casa e ainda por cima um bando de animais destrói o patrimônio do próprio time.

Não bastasse a derrota, torcedor de time derrota ainda tem que agüentar desaforos até que a poeira baixe. É uma terrível sina, um pesado fardo a ser carregado. Acontece…

Como bem difamou a torcida colorada, ano que vem haverá um “GreNau”. Grêmio x Náutico.

Colírio

— E aí, filho, como foi lá no médico?
— Tudo certo. Meus olhos estão bons. A única coisa que ele disse é que eu preciso olhar pelo menos quatro vezes para a …
— Ahn?
— Colírio, mãe. Preciso de colírio.

Ouvindo: The Offspring - Denial, Revisited (4:32)

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