Desligue seu celular e pager
Pois para esta manhã de quarta-feira estava programada uma bela dormida. Dormir até não agüentar mais. O plano começou na noite anterior, quando, com sono mas em uma crise existencial, atrasei a hora de ir ao berço até o último minuto.
Às 6:20, na terceira tentativa do celular me acordar e com meu som já cuspindo as notícias matinais, eis que percebo que mesmo estando bom, ainda tenho obrigações com as drogas e preciso ingerir alguns remédios. Aproveito para ir ao banheiro e fico refletindo na janela, um tanto intrigado, sobre como um dia tão belo aparece após uma noite tão chuvosa. Desisto e volto ao leito.
Quinze para as oito toca o celular, mas por estar no *Vibracall* e sobre a mesa, penso que estão me perseguindo com uma metralhadora em meu sonho; sangue por todo lado. Mais cinco minutos e a metralhadora volta a jorrar suas balas de grosso calibre. Entro, então, num estágio de investigação do sonho: isso não pode ser uma metralhadora pois se eu já levei tantos tiros deveria estar morto. Logo, estou sonhando. Acorda!
— Oi, Pedro? É o Milton, tudo bem? Escuta, tu vem aqui hoje? Nós estamos precisando de ti. Não vai ter ninguém pra colocar o som no ginásio e gostaríamos de saber se tu topas vir aqui para fazer isso?!
— Ahm.. Err.. Claro, me dá 30 minutos que eu apareço aí.
Mudança de planos estratégica. Ao invés de aproveitar as competições esportivas escolares para dormir, fui convocado para trabalhar sem mesmo estar inscrito. Cada dia convenço-me mais que nasci para ser um quebra-galho. É, no meu *curriculum vitæ* estará escrito:
Experiência:
- 2005-2007 — Quebra-galho na empresa ACME
- 2007-2008 — Quebra-galho na empresa Tabajara
- 2008- — Quebra-galho na empresa NONONO
Futuro brilhante, não? Quebra-galho com carteira assinada, fundo de garantia, 13º e INPS. Minha manhã resumiu-se em ficar assistindo jogos de basquete feminino infanto-juvenis e colocar uma música qualquer durante os intervalos. Anunciar recados também fazia parte do contrato. Eu, com minha voz de veludo — que mico. Pelo menos ganhei um lanche grátis. Só não ganhei vale refeição para o almoço pois uma lasanha caseira me esperava em casa. Caso contrário teria aproveitado a boca livre.
Da próxima vez que eu tiver meus planos mirabolantes eu seguirei as recomendações do cinema. Não, não farei isso. Como todo bom quebra-galho devo estar sempre ao dispor dos que precisam. E imaginem se eu recebo um chamado divino via celular?
Ouvindo: The Offspring – One fine day (2:45)
