Caipirinha

Sendo um dos mais típicos drinks brasileiros, a caipirinha levou o nome do país ao mundo todo. Até mesmo em filmes Hollywoodianos encontra-se personagens em suas camisas floreadas à beira-mar pedindo uma “cai-pi-wrinha” para refrescar-se do calor tórrido.

O segredo da caipirinha é o famoso princípio KISS. Seus ingredientes são simples, fáceis de serem encontrados e seu sabor é a reunião de vários paladares com a refrescância do gelo. Mas há mais do que cachaça, gelo, açúcar e limão entre o céu e a terra que você pode imaginar.

A verdadeira caipirinha não é aquela preparada com moedor de limões, gelo triturado em liqüidificador e açúcar tipo exportação. Não, essa é a imagem que se tem de fora. Aqui, o espírito é outro, bem brasileirinho.

De início, não se pode iniciar a preparação sem antes ter uma música ambiente bem agradável que seja capaz de gerar reclamações dos vizinhos. O mais tradicional é encostar aquele carro que ninguém sabe a cor direito — se é branco, gelo, marfim, enfim –, abrir o porta-malas e largar um cd do Negritude Jr. Pronto, assim começa a festa.

A um certo momento, após alguns minutos de diversão batucando no capô do carro, fica evidente que está quente demais e que os três engradados de cerveja não serão suficientes para a tarde; será necessário algo mais forte. Surge então a necessidade de preparar algo mais elaborado. Neste momento, alguém se recorda que há uma cachaça de 5 anos, um tanto empoeirada, mas ainda carregando o gosto original, no armário da cozinha. Sim, aquele armário embaixo da pia. Bem no fundo, para as crianças não pegarem.

É feita então uma eleição para ver quem pegará os limões no limoeiro do vizinho sem ser mordido pelo cachorro. O baixinho que já havia tomado 5 Brahmas é escolhido, e ele concorda sem mesmo saber o que estavam decidindo. Quando vê estão chutando sua bunda e apontando pro limoeiro. Dois minutos depois volta ele deixando cair limões pelo chão e fugindo do pastor alemão raivoso.

Estando em falta de gelo, o alemão sentando na cadeira de praia amarela sobre o recém plantado jardim na grama sugere pegar o gelo do isopor no qual estão as cervejas. Apesar da caixa não ser muito limpa, já estar com algumas manchas pretas, todos concordam que o álcool acabará livrando a água de qualquer micróbio. Aliás, ninguém pensa nisso. Gelo é necessário, estando sujo ou não.

Finalmente todos os ingredientes estão reunidos e na pia da cozinha. Tudo certo até que surge uma dúvida cruel: e agora, Washington, onde servir? Tanto esforço pra nada… Momento de silêncio, os gambás se entreolham sem ver uma possível solução, até que o alemão levanta-se para ir ao banheiro pela décima vez, pergunta o que está acontecendo. “Ah, é simples”, diz ele, “pega aquele pote de Nescafé que tá lá na lavanderia. Acho que nunca foi usado. Qualquer coisa é só passar uma aguinha e tá novinho… Deixa eu ir lá que tá apertado aqui…” Grande alemão! Salvou a tarde!

Limões picados, cachaça, gelo, açúcar, tudo vai pro pote. Usam a mesma faca que cortou os limões (e alguns peixes na pescaria da semana passada) para misturar e está pronta a bebida. Como de praxe, uma última coisa é observada: não há copos; foram roubados na última festa feita na casa. Não tendo outro jeito, o pote de Nescafé passa de mão em mão como uma cuia de chimarrão. A certo ponto o alemão reclama do gosto de Omo presente na bebida, mas logo é reprimido por todos.

Afinal, não há do que reclamar. A música é boa, a bebida refresca e o dia é lindo… Tudo num clima de festa, gargalhadas altas e, a essa hora, com um cd antigo do Molejo tocando no fundo. Isso é Brasil!

Comentários »

Nenhum comentário.

Deixe um comentário

TrackBack URL