Boatos deviam estar rolando pela Internet a respeito do sumiço de Balse. Desaparecera da Internet; na sua casa declararam que havia partido em um ônibus na madrugada da sexta-feira, 23 de julho de 2004. Seu paradeiro? Uma viagem que ficaria encrustada na entranhas de sua memória eternizada enquanto estivesse vivo. Catorze dias nos quais sua vida estaria virada de ponta cabeça. Para comprovar, basta dizer que o cabeção aqui ficou sem Internet, Jornal Nacional ou Zero Hora, ouvindo — e dançando, ou melhor, tentando dançar axé.
Nesse tempinho de ausência estive viajando por este maravilhoso país chamado Brasil na companhia dos meus amigos da escola. Relatar detalhadamente a viagem seria deveras demorado e cansativo, embora muita coisa divertida e pitoresca tenha acontecido entrementes.
Uma longa viagem de ônibus, mesmo que feita em um ônibus leito, com ar condicionado, televisão, banheiro e na companhia de pessoas bastante agradáveis é, no entanto, demasiada desconfortável para alguém que excede a altura de 1,80m, especialmente quando quer se dividir dois lugares com outras duas pessoas para poder conversar. É necessário habilidade de contorcionista para acomodar as pernas ocas.
Da viagem posso concluir que São Paulo, mesmo que só tenha passado pelo cidade, é um Brasil à parte, conclusão que se deve graças à visita à rede Oasis Graal a qual coloca o Japonês no chinelo. Isso também me faz lembrar que comer em beira de estrada é caro, muito caro.
Búzios é uma praia legal. A Calçada das Pedras é um lugar muito interessante e que deixou muitas saudades. Foi lá também que eu caí no chão pela primeira vez, torto. Engraçado é ver a reação dos seus amigos no dia seguinte e você com aquela cara de tacho dizendo “ah é, é?”. Acontece.
Do Rio fomos para a Bahia, após longas horas de estrada, chegando à Porto Seguro — a terra das tatuagens de henna e dos tererês. Não tendo outra opção pra não ficar fora do agito, a solução foi freqüentar o Axé Moi e aprender a dançar as antes odiadas “bunda music”. Curiosa seria a palavra para descever a percepção que todas as músicas, sem excessão, apresentavam algum movimento que lembrasse o ato do sexo em sua coreografia. Mas Ok, tudo pela arte e diversão, certo?
Para tristeza minha, as praias são lindas, mas nada comparado à visão que se tem nas revistas o que mais uma vez comprova a teoria que a vida não passa de marketing. Contudo, nada que desanimasse este garoto não. Pelo contrário. As festas organizadas pela Porto Night foram um arraso total. Tive a oportunidade de experimentar alguns drinks um tanto… diferentes. Em alguns até percebia-se a intenção de fazer algo agradável ao paladar, como o beijo na boca ou o famoso V8. Mas outros como o Tornado, o qual é uma mistura de tudo que é tipo de bebida alcólica e depois queimado e posto dentro de um funil com gelo que vai direto para a sua boca e cujo único e exclusivo propósito é deixá-lo gambá pelo resto da festa. Eu sou testemunha.
Credo. Eu fui num show do Xandi do Harmonia do Samba. Pior: sabia a coreografia de uma música. Aprendi a dança da maozinha. Fui em umas três apresentações do MC Pelé — e gostei. “A Zumbizera vai andando para frente!”. Teve também o MC Ed Murphy. Nossa, teve de tudo, absolutamente de tudo.
Quanto à comida baiana, afirmo que até que nem é tão temperada como falam. Por sinal, creio que a que a minha avó paterna faz é muito mais apimentada e saborosa que a que experimentei em Porto Seguro. Alguns colegas, entretanto, passaram mal. Numa só noite foram uns 10 para o hospital. Mais uma vez, acontece.
Durante o caminho de ida achei o Rio de Janeiro um lixo. Que cidade maravilhosa o quê?! Cidade velha, feia e suja! Mas voltando, passando pelo “Rio dos Turistas”, conhecendo o Pão de Açúcar, a Av. Atlântica, o bairro de Ipanema, a Barra da Tijuca e por aí vai, meus olhos encheram-se de lágrima e meu coração encheu-se de amor pela cidade maravilhosa. Nos meus ouvidos soavam distantes melodias de bossa nova. E o que dizer da sensação de estar no Corcovado e encarar o Senhor, aqueles dos braços abertos e que nunca cansa de ficar assim. Mesmo para alguém que é agnóstico, a sensação de paz e fé é surpreende. Belíssimo!
Tudo isso não teria sido tão divertido, tão engraçado e tão… magnífico como foi caso eu não estivesse na companhia de todos que me acompanharam. Meus colegas honraram seus títulos de amigos do peito por toda a viagem, animando, dançando e bebendo junto em todas as festas e oportunidades. Os guias da viagem, Sheron e Tiago, foram pessoas maravilhosas, os quais pareciam irmãos. Porém, tudo isso não justificaria minha afirmação de que esta foi a melhor viagem de toda a minha vida se eu não estivesse ao lado de minha amada durante esse tempo todo. Foram seus brilhantes olhos e seu doce perfume que me guiaram para a felicidade; sua presença graciosa afastava meus medos e a saudade da família, pois ao seu lado eu me sentia como se estivesse no conforto de casa; a alegria estava em seus gestos, sua voz, seus abraços e beijos; o amor, então, por todos os lugares. Foi lindo.
Enfim, posso dizer que uma viagem como essas é uma oportunidade única e que, caso alguém tenha a chance de aproveitá-la, que não pense duas vezes em aceitar, pois vale a pena e cada centavo investido. E, segundo a teoria do caos, a qual postula que qualquer coisa que você faça implicará mudanças em todo o resto, essa viagem aumentou mais ainda minha vontade de realizar um sonho, uma outra viagem: visitar os as instalações de uma empresa nos confins das ermas gélidas terras da Rússia. Como na vida imagens valem mais do que palavras — viva o marketing! — deixarei que uma ilustre a razão da minha vontade.
Ouvindo: Pearl Jam – I am mine (3:35)