Gênese de um filho
Decepcionado com o vestibular da Unisinos, ressentido por não ter ficado estressado — embora contente com a recepção do resultado — decidi testar o vestibular da PUC/RS que “é um vestibular decente”, segundo meu pai. Eis que nos últimos três dias da semana estive envolvido nesse processo de seleção de alunos, testando meu conhecimento mas também conhecendo o campus e vivendo situações inusitadas. Eis aqui um breve resumo dessa façanha.
1º dia — A “pandinha”: Iniciei a jornada no dia 12 de julho juntamente com meu colega Christian. Chegamos ao Campus da PUC 45 minutos antes da prova fomos localizar o local da prova. No caminho, em frente ao DCE, havia um bando de malucos protestando em alto e bom som: “Se você passar no vestibular, cancele a contribuição, pois no DCE da PUC só tem gatuno ladrão!”. Ok.
Um olhar a minha volta permitiu definir o padrão do pessoal que faria o teste. Aquelas mocinhas de Porto Alegre, calça Brasil Sul, blusão de marca de surf, bolsinha VH ou LV, mexendo em seu cabelo com luzes mascando um chiclete. Ahm, OK, sem mais comentários. A única coisa que me deixou desconfortável é que, ao contrário da Unisinos, nesta vez me senti realmente um “piá”.
Equipes da RBS e de outros jornais cobriam o evento e quando vi aquela moça do jornal das 7 se aproximando, virei de costas e observei a beleza das folhas das árvores que estava à minha frente. Faltando 30 minutos para o início da prova, abrem-se os portões para a entrada dos candidatos.
A primeira coisa que reparei foi “oba!, cadeiras estofadas!”. O único problema é que seu revestimento plástico fazia um ruído muito semelhante ao do flato, o que proporcionou certas gargalhadas durante a prova.
Uma provinha tranqüila, muito acessível, com 15 questões de língua portuguesa e três temas para elaborar uma redação de 25 a 30 linhas, a qual ocupei-me primeiramente, o que foi demasiado certo de minha parte. Ao concluir a prova, um único porém. “Ei, moça, já assinaram no meu nome. Ahm, pois é, eu ainda não saí da sala e não me chamo Vanessa.” A solução foi assinar ao lado da assinatura da pateta que fez aquilo e sair da sala, sem provas, rascunhos ou qualquer outra coisa a não ser meu papel de identificação.
Esperando meu companheiro de guerra, sentei-me em uma lancheria e tomei um café preto comendo um pão de queijo Forno de Minas. Só faltava a Folha de São Paulo em minha frente, enquanto eu, vestido de terno e gravata, consultava meu Rolex para não chegar atrasado a uma próxima reunião.
Minutos e perguntas depois, fomos à parada de ônibus pegar o famoso Ipiranga/PUC, que nos deixou na estação Rodoviária do Trensurb. Uma surpresa, porém, nos alegrou no local: havia uma bandinha de música alemã executando suas canções. Que espetáculo! De lá, mais 50 minutos de viagem até São Leopoldo, dos quais 45 ficamos em pé sem lugar algum para sentar — novidade. Vida de trabalhador é difícil!
2º dia — Um Twix: A recepção no segundo dia não foi por revoltados, mas sim por duas belas moças uniformizadas distribuindo os famosos Twix gratuitamente. Apesar de ter recusado todos os panfletos, meu chocolate eu não neguei! Afinal, estavam oferecendo, é meu direito ganhar um!
A fiscal dessa vez alerta que os candidatos confiram se estão assinando ao lado dos seus nomes, fato que provoca gargalhadas. Começo a prova por matemática, para acalmar-me e ficar em paz, preparado psicologicamente para as provas de literatura e história que estavam por vir.
Existe um sino que soa de quinze em quinze minutos. Não atrapalha e, pelo contrário, mostrou-se muito útil, apesar de eu estar utilizando meu fiel relógio. Entretanto, em duas horas de provas eu já estava exausto e entregando minha folha óptica. Por hoje é só!
Conclusão que tiro desse dia: Preciso estudar história e literatura.
3º e último dia — a tentação: Como um dia não deve ser igual ao outro, decidimos ir de ônibus no último dia da prova, recusando a carona da minha irmã. Após ter feito 2/3 da prova, a chance de algo dar errado deveria ser maior, e queríamos adrenalina.
Felizmente, tudo correu bem e após duas horas e quinze minutos perambulando em transportes coletivos, chegamos ao nosso destino, sãos e salvos. O único susto que levamos foi chegar ao Mercado Público e notar que todos os passageiros do ônibus desceram, à exceção de nós.
Após uma longa e demorada discussão e indecisão até encontrar um lugar para almoçar, já que o restaurante Panorâmico estava abarrotado de homens de terno, fomos comer numa lancheria. Comidinha muito boa, que levou consigo duas latinhas de Guaraná, uma atrás da outra.
Com muito tempo para a prova, passeamos pelo campus e entramos no prédio das engenharias. Ao depararmo-nos com o centro de processamento de dados, aqueles dois garotos, boquiabertos em frente àqueles circuitos eletrônicos, cabos e luzes piscantes, sentiram-se fortemente tentados a largar tudo trabalhar naquelas máquinas. Ao ver uma engenhosidade humana como aquela, a tentação de largar tudo e seguir a pequena vertente que nos chama à Engenharia da Computação foi forte, mas superada.
Ainda um tanto perplexos com o que havíamos visto, encontramos um lugar para descansar antes da prova: uns bancos em meio a um jardim, muito reconfortante. O tempo, ali, parou e acalmaram-se os ânimos. Somos tomados por uma sensação de nostalgia, que nos recorda que, em um ano, estaremos entrando no nosso atual colégio apenas com o crachá de visitante.
Mas as coisas hão de mudar.
O último dia de provas definitivamente começa. As fiscais, muito simpáticas por sinal, demonstram simpatia para com os candidatos e todo sentem-se conhecidos, velhos amigos distantes que encontram-se mais uma vez para uma última missão juntos. O aviso dado dessa vez é para não levarem a folha de respostas consigo, pois, segundo ela, aconteceram casos. Por favor!
O dia quente e abafado é tomado por um temporal que molha os que estavam sentados próximo à janela. A chuva leva consigo minha paciência, que esgota-se ao imaginar a possibilidade de estar em casa, no berço, dormindo ao som do cair das gotas.
Pela primeira vez acabo a prova depois que meu amigo, e vamos a uma lancheria comer algo, pois nesse dia havia esquecido de pegar um suprimento de Sticadinho’s; um Twix duplo, porém, supriu as necessidades.
E assim termina a saga de duas pessoas que aventuraram-se em tardes com dias de clima tão volátil e estranho para testarem seus conhecimentos. O resultado, foi exatamente o esperado: preciso estudar história e literatura.
Fim do ano tem mais!
Ouvindo: U2 – Elevation (3:36)

e física =\
Mas foi divertido, e quase corremos o risco de lavar pratos
Comentário de Christian — 14.07.2004 às 20:08
e nessa hora, na bandinha, tu lembra d mim? puuutz…
huehuehuehuehuehuehue
tudo bem…
mas foi engraçado te imaginar d terno tomando cafe numa mesinha dum bar esperando a reuniao… hehhe
bjs
Comentário de Lu — 14.07.2004 às 21:09
adorei tuas conclusões…vivo tendo parecidas, mas são mais modestas, acontecem depois de SAQ’s, e não depois de um vestibular…
Comentário de Amanda — 19.07.2004 às 19:07