Só porque o buffet é livre não quer dizer que se tenha que levar comida nos bolsos ou então passar o dia em jejum para desfrutar do banquete. Infelizmente, isso ocorre com freqüência e até mesmo na língua culta esse fenômeno pode ser observado.
A Internet é o paraíso dos excêntricos. A onda dos blogs, por exemplo, que iniciou para falar da vida ordinária. Teve casos de gente que parou de viver pra cuidar do blog, ou seja, o que era subordinado à vida tornou-se sua vida. Louco! Assim os tais fotologs. Havia paisagens, festas, fenômenos curiosos e, também, o normal. De uma hora para a outra houve uma chuva de gente querendo se mostrar de um jeito inacreditável: casais de sadomasoquistas, As fezes do meu cachorro, O crescimento da minha samambaia, Me chamo Narciso, e por aí vai. Exageros!
Outro fato que teve como berço a Internet foi a redução da palavra escrita. Que fique claro que isto é especulação e pode até ser que isso não provenha da Internet, mas do telégrafo ou outro meio arcaico; o que importa é que, pra variar, o fenômeno adquiriu proporções absurdas.
Houve um tempo que portabilidade e internacionalização não eram levados em conta na Informática. Era muito mais interessante, financeiramente, vender uma máquina nova, específica, do que limitar sua capacidade em prol de um público alvo maior. Hoje comprova-se que este pensamento estava equivocado. Pois bem. Nessa época, a acentuação gráfica das palavras era ineficiente, de modo que nos porões nerds como as redes de BBS e, posteriormente, IRC proliferavam-se palavras se acentuação alguma, algo perfeitamente compreensível devido às restrições técnicas.
O mesmo vale para sistemas nos quais o número de caracteres de fato fazia alguma diferença, seja pelo tamanho do pacote a ser transferido, seja pela tarifa. Mais uma vez, louvadas sejam essas iniciativas que possibilitaram a comunicação mesmo com tamanha dificuldade.
Agora o que me deixa frustrado atualmente é o assassinato da língua portuguesa, quando não existe limite de caracteres — exceto nas SMS — e a integração de idiomas é perfeita. Povo maravilhoso, somos extremamente privilegiados por sermos falantes de uma língua tão bela e tão vasta e ainda assim estamos deixando de aproveitá-la! Ah, que dor! Um enorme sentimento de tristeza e decepção toma-me quando leio algo como “Aiiixxx miguxa! Naum mi squeci diti i ve xiii paxa lah nu meu flog! XI pahhh tu tah nu meu colaxaum! Bjuuuxxx” — e como doeu ao reproduzir tal blasfêmia!
Não versus naum — Um pequeno retrato do caos:
- Não: Soa redondo, intenso, forte, cumprindo com sua função elementar de negar ou contestar uma afirmação. Possui três letras e um indicador de nasalização.
- Naum: Além de possuir quatro letras, o que não justifica seu uso pela economia de caracteres, soa horrivelmente como um sino agudo.
Eu sei, meu telhado é de vidro e é enorme. Estou assumindo um enorme risco ao expor minha face, mas mostro o outro lado se ainda assim for necessário. Que fique claro que minha intenção aqui é a melhor possível. Luto por uma causa nobre e não pretendo magoar ninguém, se for possível; apenas fazer com que reflitam sobre o que estão fazendo. Assistir a essa chacina, calado, é impossível e revoltante. Por isso volto a dizer: calma. A língua é um dos melhores instrumentos que você tem para mostrar o quão inteligente e sensato é. Portanto, antes de pronunciar uma coisa daquelas — bagulho ou troço são outros dois bons sinônimos –, mostre que sua cabeça serve para algo mais além de usar gorros e bonés ou pendurar brincos. Afinal, você não gostaria de voltar ao restaurante e saber que o buffet é livre, mas você só pode pegar um pedaço de carne, um copo de suco e dois pastéis.
Prudência. Zelai-vos pelo futuro!
Ouvindo: Coldplay – Warning Sign (5:31)