Qual lado?

A banda carioca O Rappa sempre teve um caráter social em suas músicas. Desde seus primeiros CDs os integrantes obtiveram grande aceitação nas rádios, tendo como um de seus mais consagrados discos o “Lado B, Lado A”, lançado em 2000 pelo selo da Warner.

A dica vai para as músicas “Me deixa”, “O que sobrou do céu” e “A minha alma”. Existe também uma edição especial do disco na qual estão incluídos os clipes das duas últimas músicas citadas que, diga-se de passagem, são muito bem produzidos.

Esse talvez tenha sido o primeiro disco do Rappa que tenha me encantado. A batida forte e característica da banda contrasta com as boas rimas encontradas nas letras. Para quem gostar do trabalho, assim como eu, o último CD da banda, “O Silêncio Q Precede O Esporro”, está nas lojas há um bom tempo e também é excelente. Seu comentário, porém, fica para uma próxima.

Ouvindo: Lauryn Hill & Bob Marley – Turn your lights down low (4:02)

Prudência

Só porque o buffet é livre não quer dizer que se tenha que levar comida nos bolsos ou então passar o dia em jejum para desfrutar do banquete. Infelizmente, isso ocorre com freqüência e até mesmo na língua culta esse fenômeno pode ser observado.

A Internet é o paraíso dos excêntricos. A onda dos blogs, por exemplo, que iniciou para falar da vida ordinária. Teve casos de gente que parou de viver pra cuidar do blog, ou seja, o que era subordinado à vida tornou-se sua vida. Louco! Assim os tais fotologs. Havia paisagens, festas, fenômenos curiosos e, também, o normal. De uma hora para a outra houve uma chuva de gente querendo se mostrar de um jeito inacreditável: casais de sadomasoquistas, As fezes do meu cachorro, O crescimento da minha samambaia, Me chamo Narciso, e por aí vai. Exageros!

Outro fato que teve como berço a Internet foi a redução da palavra escrita. Que fique claro que isto é especulação e pode até ser que isso não provenha da Internet, mas do telégrafo ou outro meio arcaico; o que importa é que, pra variar, o fenômeno adquiriu proporções absurdas.

Houve um tempo que portabilidade e internacionalização não eram levados em conta na Informática. Era muito mais interessante, financeiramente, vender uma máquina nova, específica, do que limitar sua capacidade em prol de um público alvo maior. Hoje comprova-se que este pensamento estava equivocado. Pois bem. Nessa época, a acentuação gráfica das palavras era ineficiente, de modo que nos porões nerds como as redes de BBS e, posteriormente, IRC proliferavam-se palavras se acentuação alguma, algo perfeitamente compreensível devido às restrições técnicas.

O mesmo vale para sistemas nos quais o número de caracteres de fato fazia alguma diferença, seja pelo tamanho do pacote a ser transferido, seja pela tarifa. Mais uma vez, louvadas sejam essas iniciativas que possibilitaram a comunicação mesmo com tamanha dificuldade.

Agora o que me deixa frustrado atualmente é o assassinato da língua portuguesa, quando não existe limite de caracteres — exceto nas SMS — e a integração de idiomas é perfeita. Povo maravilhoso, somos extremamente privilegiados por sermos falantes de uma língua tão bela e tão vasta e ainda assim estamos deixando de aproveitá-la! Ah, que dor! Um enorme sentimento de tristeza e decepção toma-me quando leio algo como “Aiiixxx miguxa! Naum mi squeci diti i ve xiii paxa lah nu meu flog! XI pahhh tu tah nu meu colaxaum! Bjuuuxxx” — e como doeu ao reproduzir tal blasfêmia!

Não versus naum — Um pequeno retrato do caos:

  • Não: Soa redondo, intenso, forte, cumprindo com sua função elementar de negar ou contestar uma afirmação. Possui três letras e um indicador de nasalização.
  • Naum: Além de possuir quatro letras, o que não justifica seu uso pela economia de caracteres, soa horrivelmente como um sino agudo.

Eu sei, meu telhado é de vidro e é enorme. Estou assumindo um enorme risco ao expor minha face, mas mostro o outro lado se ainda assim for necessário. Que fique claro que minha intenção aqui é a melhor possível. Luto por uma causa nobre e não pretendo magoar ninguém, se for possível; apenas fazer com que reflitam sobre o que estão fazendo. Assistir a essa chacina, calado, é impossível e revoltante. Por isso volto a dizer: calma. A língua é um dos melhores instrumentos que você tem para mostrar o quão inteligente e sensato é. Portanto, antes de pronunciar uma coisa daquelas — bagulho ou troço são outros dois bons sinônimos –, mostre que sua cabeça serve para algo mais além de usar gorros e bonés ou pendurar brincos. Afinal, você não gostaria de voltar ao restaurante e saber que o buffet é livre, mas você só pode pegar um pedaço de carne, um copo de suco e dois pastéis.

Prudência. Zelai-vos pelo futuro!

Ouvindo: Coldplay – Warning Sign (5:31)

Como o hoje não entrou pra história

Receita de como não se aproveita um feriado:

Ingredientes necessários:

  • Uma xícara e meia de preguiça.
  • Duas pitadas de gripe.
  • Cabelo despenteado.
  • Um pijama velho.

Modo de preparo:

Coloque todos os ingredientes no corpo humano de um ser completamente inútil. Deixe-o em repouso em sua cama por pelos menos uma hora a mais do que ele deveria ficar dormindo. Após, coloque-o em contato com o dia chuvoso, frio e meloso*. Matenha-no ocupado com algo inútil e desnecessário por todo o resto do dia.

O que salvou o hoje foi a lasanha de presunto e queijo.

Ouvindo: The Crystal Method – I know its you (5:48)

*: A chuva apareceu justamente quando não devia. Começou a chover quando acordei e ela só se foi junto com o sol, sinal que estão armando alguma pra cima de mim. Mas meloso se refere ao estado dos objetos num dia como este, quando se encosta na maçaneta, por exemplo, e ela gruda nas mãos, tamanha a umidade do ar.

Kamikaze

Esse mosquito suicida. Ele estava parado na fria parede do meu quarto. Se mosquitos dormem, então estava dormindo. Encarei-o, e eis que ele abre suas asas e vem voando todo desajeitado, como um avião com problemas durante o pouso.

Desceu, desceu, desceu e foi direto ao ponto. Tentou atacar minha mão… Esse safado! Aproveitador! Canalha! Se aproveitou da minha distração para roubar meu sangue! Tomara que ele fique gripado!

Soprei o local da queda e deixei que se fosse sem ter de pagar nada pelo estrago. É como um bêbado querendo cirar confusão num bar. Deixe-o ir sem pagar a conta pois é melhor que ter o bar todo quebrado de uma briga.

Ele se foi e pousou sob a luminária. Lá ficou mais uma vez cochilando. Não demorou muito e subiu novamente, voando todo torto. Pousou sobre a minha bochecha e partiu pro ataque mais uma vez. É a segunda vez; não haverá terceira.

Ouvindo: Outkast – Hey ya

Um sonho

Estava em seu leito, ao lado dela. A imagem estava desfocada, mas via-se claramente sua mão passando por entre os fios de cabelo dela. Do corpo dela emanava uma intensa luz branca, vivaz, como se não fosse um ser comum, mas um anjo. Nos rostos, antes sempre desfigurados, feições de um sorriso puro e sereno se misturavam entre lençóis e travesseiros.

De súbito, raios solares penetraram em seus olhos anunciando o crepúsculo matinal, apagando de sua mente toda a magia daquela cena: estava sonhando. Baixou os olhos e tateou sua própria mão, encostando num objeto metálico e frio.

Virou-se bruscamente ao perceber um leve passo estalando o assoalho.

– Que foi?, disse ela.

– Nada não. Só pensei que… Deixa pra lá, esquece. — Seu olhar, antes assustado, adquiriu um tom de felicidade, muito próximo àquele de seu sonho. — Vem pra cá mais um pouquinho. Ainda é cedo.

Abrindo um enorme sorriso, ela deitou-se ao seu lado. Beijaram-se longa e apaixonadamente. Olharam fixamente um para o outro e partilharam do mesmo pensamento: a melhor coisa que podia ter lhes acontecido era um estar ao lado do outro naquele momento. Ele ajeitou o cabelo dela, caído sobre seus olhos, e disse:

– Só tive o mesmo sonho de sempre… O medo de que eu estivesse vivendo uma ilusão. Mas agora, aqui, contigo ao meu lado, eu tenho a certeza que o meu maior sonho tornou-se realidade.

Ela entendeu o que ele acabara de dizer e limitou-se a cerrar os olhos e dar aquele suspiro de alegria de sempre. Virou-se de costas e ficou ali, pensativa, enquanto ele a envolveu em seus braços e ficaram ali, os dois, por quase uma eternidade.

Com a mão sobre a cabeça dela, concluiu: sua jura de amor fora cumprida.

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