Pé frio

Crescemos ouvindo que “pé frio” é aquele sujeito azarado, sem sorte na vida e que sempre se dá mal. E mais, além de não obter sucesso, leva consigo os outros, sendo responsável pelo desastre coletivo. Se isso é verdade, pobre Balse!

Na medida que os dias vão ficando mais frios, a quantidade de roupa e elementos que são colocados na cama vão aumentando, obviamente. Enquanto no verão basta o inseparável edredom, no invero há espaço para um pesado e sufocante cobertor de penas que retém todo e qualquer resquício de calor liberado pelo corpo. A cama transforma-se em uma sauna.

Dependendo do dia — sua temperatura, para ser mais específico –, são necessários não só cobertores, como também um pijama, até para facilitar na hora de levantar no outro dia. E, como não podiam ficar de fora, os pés também passam ser cobertos até mesmo durante à noite com meias. Ficam quentinhos, mesmo quando escapam da proteção das cobertas.

Um problema, porém, que vem ocorrendo com certa freqüência, é quando um “pé” da meia escapa. Nas primeiras horas da manhã, a primeira sensação que se tem não é aquela “que belos sonhos tive” e sim “que diabos fez meu pé ficar gelado desse jeito?!”

Triste futuro para um pé frio. Enquanto seu fiel companheiro permanece coberto, o outro, desolado, enfrenta o frio dos pampas desprotegido, sofrendo, e completamente nu!

Pobre pé, sensível, tamanho 43/44. Se continuar desse jeito, serei obrigado a usar algum tipo de suspensório para meias, ou atá-las usando fita adesiva. Já pensei em ambas situações. Sim, pensei. A primeira foi vetada pois não existe uma superfície adequada para fixar as cordinhas; a segunda também, pois prefiro mil vezes passar frio nos pés a depilar as pernas. Afinal, gaúcho que é gaúcho dorme sob geada e acorda suado!

Ouvindo: Jack Johnson – Times like these (2:22)

It’s over

Luís Vaz de Camões, o célebre escritor português certa vez escreveu:

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

A data na qual tudo começou é uma incógnita desnecessária. Seis, talvez sete anos atrás, não importa. Sabe-se, porém, que uma criança, de cabelos curtos e querendo decifrar aquilo que não conseguia entender confessou aos seus pais sua vontade de aprender inglês.

Orgulhosos da iniciativa do filho, matricularam-no no Unilinguas. E daquela data em diante, havia um dia específico na semana que freqüentava a Universidade para cursar a língua.

Bons foram os tempos nos quais pedia dois pastéis de queijo bem torradinhos, com um copo de Coca-Cola no seu lanche. Ou quando ficava no laboratório olhando pela n-ésima vez a fita do Mr. Bean. Muito aprontou também. Foi para o Inglês que fizera sua única cola, a qual não foi necessária durante a prova. Sua atuação em aula, e conseqüente resultado nunca foram ruins, por sinal. Estava lá não por vontade alheia, mas porque queria de fato aprender, ampliar seus horizontes.

Durante sua jornada, acabou fazendo muitos amigos, alguns dos quais permanecerão em sua memória por longos anos. Os professores, diferentes a cada semestre, também tiveram papel fundamental em sua formação. Metodologias diferentes, experiências de vida e histórias novas que faziam com que fosse com entusiasmo às aulas.

Teve de enfrentar turmas de adultos mesmo tendo pouca idade. Nas primeiras aulas sempre perguntavam se ele não estava perdido por lá em meio a pessoas com o dobro de sua idade — ou até mais. Houve também um dia em que teve de fazer uma difícil decisão: optar por ter aulas à noite ou abandonar o inglês. Acabou fazendo atletismo no colégio para poder livrar-se da Educação Física e, portanto, ter a tarde do inglês livre. Um sacrifício pela cultura, sim, mas que foi válido pois até mesmo a experiência do esporto lhe foi de grande valia. No ano seguinte, porém, passou a enfrentar o turno da noite e dormir mais tarde também.

No final, porém, valeu a pena todo o esforço. Valeu não só por ter conhecido a gramática e novos vocábulos da língua inglesa, mas por todo o pano de fundo do curso: os comentários em aula, as reportagens dos livros, os amigos, as palestras promovidas, e toda a experiência em si.

Acabou, mas não está concluído. Afinal, o ciclo de aprendizagem não é algo que tenha um fim, mas um processo que se estende para sempre. Não existe “formatura”. Devemos sempre estar prontos para aprender algo a cada novo dia.

começa de servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.

Ouvindo: Kiss – Rock and Roll All Night [live] (4:20)

Sobre o enigma

Certas vezes o silêncio, por mais constrangedor que pareça, diz muito mais que palavras. Meu boletim, por exemplo. Peguei-no no último sábado. Ninguém aqui em casa até agora veio pedir satisfações. Está aqui, depositado em meio aos livros da minha mesa.

Outro mistério que está muito íntimo à minha sombra é o roteiro — que ainda nem foi feito — do curta metragem que estamos produzinho para a oficina de Cinema, Áudio e TV. Nossa! Já estou com o filme filmado em minha cabeça e só falta colocar a mão na massa. Mas vai dar o que falar. Se tudo der certo, ganharemos a Palma de Ouro. Tá, não preciso ser tão pretencioso, ambicioso e ganancioso assim. Palmas da Platéia já bastam. Mas vai ficar bom. Stefan e Cristina que o digam.

O que posso estar escondendo então? Nada. Acontece que muitas vezes eu não dou satisfação do que estou fazendo da minha vida. Não gosto disso. Minha plantação de pepinos é grande, mas deles cuido eu. Se precisar de ajuda, pedi-la-ei (fonética maravilhosa!). E quando mistério são feitos em torno de um fato, a fofoca cresce, as orelhas são aguçadas, e o alvoroço toma conta do caso. Sensacionalismo barato! Manchetes bombásticas! Palavrões e um escarcéu de comentários ultrajantes brotam de bocas vorazes.

Ando muito enigmático. A discrição chegou a tal ponto que nem eu sei mais o que escondo — nem de quem!

Nada grave, porém, pelo menos ultimamente. Não matei ninguém nem passei trote para a polícia. Não tranquei um gato no boeiro nem peguei o carro às escondidas. Também não deixei de fazer os temas ou de tomar banho. Ah, e não roubei dinheiro de uma velhinha no caixa eletrônico. O que é que eu posso esconder então?

– PARÁGRAFO CENSURADO PELA POLÍCIA DO PENSAMENTO –

Ouvindo: Richard Edlinger – Beethoven’s Symphony No. 4 in B Flat Major (6:39)

Sugestões

Os fins de semana estão ficando cada vez mais belos. A temperatura estável e agradável, o céu limpo e nada de vento. Muitos aproveitam para passear com o cachorro, as mães levam seus bebês para pegar um sol, aposentados saem para varrer a calçada e namorados vão ao shopping. E eu com meu magro traseiro na cadeira…

Enquanto havia este lindo dia lá fora, lá estava eu atirado no sofá dando continuidade à minha maratona de filmes. Foram três em menos de um dia:

  • Cidade dos Anjos [imdb]: Lindo filme, tão comentado, badalado e recomendando por meus amigos que já estava envergonhado por não ter assistido. É um bom filme para se assistir a dois, comendo pipoca e tomando Coca-Cola. Uma fotografia estupenda e ótima interpretação de Nicolas Cage e Meg Ryan, que formam um belo casal. Interessante a caracterização dos anjos, por sinal: vestem-se de preto, ao contrário do tradicional alvo. O filme encerra, porém, de forma desapontadora, mesmo que nos faça lembrar que na vida nem tudo pode ser como sonhamos.

  • Sobre meninos e lobos [imdb]: Dirigido pelo famoso ator Clint Eastwood, este filme obteve grande repercussão durante a cerimônia do Oscar, na qual arrebatou duas estatuetas por melhor ator, Sean Penn, e melhor ator coadjuvante, Tim Robbins. Prêmio, aliás, que é plenamente justificável pela brilhante atuação de ambos atores, sem falar em Kevin Bacon e Laurence Fishburne.

    Como se o elenco não fosse bom o suficiente para que o filme tivesse nota 10, sua história é rica em detalhes e muito, mas muito intrigante. Um drama que versa sobre a história de três meninos que tomam caminhos diferentes na vida e acabam tendo suas vidas cruzadas mais uma vez devido à morte da filha de um deles. Todas as evidências levam ao único personagem que sabidamente não é o criminoso, porém alguém completamente livre de suspeitas. Há muitos questionamentos sobre poder e amor no filme, especialmente se este último é capaz de justificar qualquer de nossos atos — será?

  • A Vida de David Gale [imdb]: O último filme da lista foi essa excelente obra dirigida por Alan Parker. Trata da vida de um renomado professor de filosofia que é condenado à pena de morte por ter estruprado uma mulher. Quatro dias antes da execução, ele declara que gostaria de receber pela primeira vez a imprensa para que pudesse contar sua história. Por ironia do destino ou não, David Gale, interpretado com afinco por Kevin Spacey, era um ativista contra a pena de morte. Cenas chocantes e muito tensas são conduzidas a fim de manter um enorme suspense a respeito de sua condenação e sua sentença. Assim como no filme anteriormente citado, algumas questões rotineiras são colocadas em xeque: o que é importante na vida? O que é o desejo? Quais devem ser nossos objetivos? Até que ponto é válido lutar por uma causa?

Aí está a dica de Balse para quem quiser olhar um filmezinho no fim de semana. Três ótimos filmes, emocionantes. Portanto, fica um aviso aos corações moles que tremulam por aí: não chorem demais. Afinal, tudo não passa de ficção. E, quem já tiver visto algum deles e quiser expor sua opinião neste barzinho de beira de estrada, por favor, tenha a bondade de comentar!

Ouvindo: Dave Mathews Band – The Space Between (4:03)

Por que acordastes?

Tem dias que eu não deveria levantar da cama de jeito algum. Ao primeiro sinal de vida do despertador, ele deveria ser silenciado imediatamente, sem dó nem piedade. Eu, então, poderia tranqüilamente, sem remorso ou pesar, virar-me para o outro lado da cama, cobrir minhas costas com as cobertas, contorcer os braços e afundar-me em meus … sonhos.

Em dias assim percebo como é difícil encontrar limites para certas coisas, o que implica ficar mais chato do que o normal. É possível notar que estou chato, dizendo coisas inoportunuas. Um sentimento de desgosto comigo mesmo me conduz pelo resto do dia. Algo como uma dor de cabeça misturada com náusea. Bad hair day.

Se tudo na vida fosse lindo e maravilhoso, a minha certamente iria estar preenchida de tédio e desgosto. Por isso eu me conformo que nem sempre seremos vencedores e que certas vezes vamos perder, falhar, fracassar — e aprender com tais erros.

Algo que está cada vez mais claro em minha mente é que a minha facilidade com a palavra escrita não tem relação alguma com a aptidão de concretizar o pensamento em ação, ou verbalizá-lo. E isso tem um reflexo imediato em minha auto-estima. Frustração. Estou cada vez mais sucetível a auto-críticas e decepcionado com meus atos. Arrependimento, eita palavrinha danada essa sô!

Ah… Chega. Estou quebrando uma promessa ao ficar falando essas besteiras aqui. Deveria estar calado no meu canto ou tentando afastar essa angústia, e não falando abobrinhas.

Esse caos precisa voltar a tomar forma. Encontre uma saída, e rápido! Lembre-se que tudo flui e que nesse mesmo rio você não poderá entrar novamente. Dê um rumo em sua vida, ou breve muito breve verás o teu inimigo surgir das sombras galopeando à toda velocidade.

Ouvindo: Dream Theater – Voices (9:53)

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