Pré-acadêmico
Não estava ansioso nem com frio na barriga. Nada, nada. Dormi tranqüilo, acordei disposto e muito calmo. Era dia do meu primeiro concurso vestibular, logo sendo cobaia do Novo Vestibular UNISINOS.
Antes de entrar no clima de prova, eu tinha aula — nossa oficina da Cinema, Áudio e Televisão, que ocorre religiosamente no horário da missa de sábado. Assistimos ao fantástico filme Koyaanisqatsy [imdb], um filme composto apenas de sons e imagens. O nome, apesar de estranho, significa “vida fora de controle” no dialeto da tribo americana Hopi, que nada mais é do que a mensagem que o diretor tenta passar: estamos evoluindo tecnologicamente de forma fantástica. Mas esse sinuoso caminho está nos levando à auto-destruição.
Ao sair da escola, alertei aos demais vestibulandos que seria bom apertarmos o passo caso quiséssemos almoçar antes de fazer a prova. “Um minuto pode fazer toda diferença hoje”, ressaltei. Não deu outra: estávamos subindo a escada rolante quando o trem partiu; mais dez minutos de espera.
Ironia do destino ou não, ao chegar na estação da universidade e nos dirigirmos à fila do ônibus, eis que passa minha irmã de carro e nos dá uma carona. Pronto: agora tínhamos todo o tempo necessário para almoçar e fazer tudo na mais santa paz.
Ao chegar aos portões da instituição, uma multidão de entrega-coisas estava à postos distribuindo folhetos, tabelas periódicas, sacolas, canetas e tudo o que podia se imaginar. Fiquei apenas com uma amostra grátis de Nutry.
Almoçamos bem, comendo comida de verdade para ter energia de sobra pra prova, e nosso trio despediu-se para cada um encontrar sua sala. Entretanto, acabei fazendo uma enorme confusão e troquei o centro que iria fazer a prova. Como havia tempo de sobra, bastou cinco minutos para encontrarmos a sala correta.
Ao longo do tempo, mais e mais conhecidos surgiam por todos os lados. A faixa etária, porém, deixou-me perplexo: esperava uma pirralhada sem tamanho como eu, e não tanta gente nos seus 20, 25, anos. Mas tudo bem. Entrei na sala e sobre minha mesa havia um jornalzinho, uma caneta e um copo d’água. Conversa vai, conversa vem, soa o sinal para o início da prova e as orientações são dadas, o caderno distribuído. A primeira etapa: redação.
Pensei que seria muito mais difícil do que foi escrever quase 70 linhas de texto. A comissão do vestibular também foi generosa, fornecendo um amplo material de apoio para a construção de texto, com textos contendo argumentos contra ou a favor dos temas que o candidato poderia escolher.
Já estava de saco cheio por não estar nervoso. Enquanto escrevia a redação, uma sinfonia de Beethoven soava aos meus ouvidos. Somente quando soou o sinal alertando 30 minutos restantes é que um frio percorreu a espinha, embora a quinze minutos antes do prazo limite para a conclusão da redação terminei de passá-la a limpo, restando-me apenas escolher um título.
Pronto. Estava liberado para o recreio. Três horas de redação e meu braço já estava dolorido. Pausa para conversar com os amigos, devorar um pacote de Sticadinhos, meu Nutry grátis e tomar alguma coisa. Às 16h20min soa o sinal de retorno. Para surpresa minha, fui um dos últimos a chegar na sala; gente atucanada.
O copo d’água, que havia secado em uma hora de prova havia sido substituído por outro novinho. A sede mais uma vez chegou e, com ela, o sinal de início. Mais orientações foram distribuídas e, enfim, chegou o definitivo caderno de provas, contendo oito questões multidisciplinares dissertativas, das quais cada candidato poderia escolher cinco.
A paciência já estava se esgotando, pois eu sabia que, à exceção da experiência, nada me acrescentaria colocar um esforço maior na prova. Afinal, sou aluno do Ensino Médio, não tenho como me matricular. Mas tudo bem, comecei pelas que envolviam cálculo, até para possuir um pouco mais de tranqüilidade.
Minha sorte foi ter apenas elencado tópicos e feito os cálculos no caderno das questões, pois caso tivesse elaborado os textos no mesmo para depois passá-los a limpo no caderno de respostas o tempo seria insuficiente. Mas, felizmente, concluí todas as questões que havia escolhido. O relógio marcava 19h20min e eu abandonava o local da prova.
Seis horas escrevendo sem parar. Meu antebraço, que já doía desde a manhã, não sei a que cargas d’água, pedia pelo amor de Deus, dos anjos e das estrelas que eu lhe desse uma folga. Os dedos já estavam vermelhos de tanto escrever, e eu com fome, muita fome. Exausto, como se tivesse saído de uma guerra. Esgotado.
A peleia foi braba, de faca. Mas nada que uma boa conversa com amigos não me recuperasse instantaneamente. Em poucos minutos eu já estava plenamente recuperado e o braço, pronto pra outra. Pensei no pobre coitado, porém, e decidi dar-lhe uma trégua.
É… A peleia foi braba, foi sim. Não estressa, mas esgota. Fim do ano tem mais. Mas antes, talvez, eu experimente qual é a sensação de tentar ser um filho da pãc.
Puxa! Como eu falo! Cala a sua boca, menino!
Ouvindo: Jack Johnson - Taylor (3:59)
