A entrevista

O trem demorou demais pra chegar hoje. Ou pelo menos foi a impressão que tive. Aqueles quatro vagões que antes pareciam chegar de minuto em minuto levaram horas para aparecer. Ninguém estava aflito pois não notaram seu atraso. Somente eu percebi, mas fiquei quieto. Aproveitei o tempo para pensar metaforicamente em primeiro-emprego.

O sujeito trajou sua melhor roupa para conquistar aquela vaga a qual tanto aspirava hoje, embora em outros tempos não lhe despertava interesse algum. Chegou atrasado à entrevista e aguardou pacientemente sua vez entre seus muitos concorrentes. Pôs-se a pensar que voltaria para casa naquele dia de cabeça erguida e carteira assinada.

Finalmente chegou sua hora de provar que estava apto ao cargo. Concederam-lhe a oportunidade de falar e ele, balbuciando, com as palavras fugindo à sua mente, expressou sua aflição diante do desemprego e como esforçaria-se para não perder aquele posto de trabalho. Então chegou a maldita pergunta que sempre lhe abalava emocionalmente:

– Então senhor …, qual experiência de trabalho que você possui?
– Bom.. Err.. Na verdade eu nunca tive um trabalho fixo, com carteira assinada, sabe.. Fiz apenas alguns bicos aqui e ali… Fora isso não tive qualquer outra experiência não senhor.
– Compreendo. — Sua recusa não foi anunciada de forma direta, mas perfeitamente compreendida por aquele “compreendo”, que soou tão pesado e forte como se fosse um não.
– Mas eu preciso muito desse emprego! — disse ele não conseguindo mais ocultar seu desespero por aquela vaga. — Me dê pelo menos uma chance para provar que sou capaz!
– Acalme-se, senhor. A última coisa que vai lhe ajudar a conseguir este emprego é a perda de controle, portanto acalme-se. Nós temos o seu endereço e caso você seja selecionado nós entraremos em contato. Certo? Muito obrigado e tenha uma boa tarde. Ah, eu o acompanho até à porta.

NÃO. A sentença nem precisou ser dada, pois já estava ali, pelas entrelinhas. Não havia mais o que fazer. Mais uma derrota que sofrera em sua dura vida acabara de ser incorporada aos livros de história. “Tenha uma boa tarde”. Como esperava que fosse boa depois de aquilo tudo?

Ao caminho de casa, à pé, pois lhe faltava até mesmo o dinheiro para o ônibus, pensou mais uma vez na triste entrevista. Experiência? Como vou ter experiência se não me dão uma primeira oportunidade?, questionava-se freneticamente. Não pôde mostrar seu valor nem suas qualidades. Seu futuro acabara de mudar com aquele não.

. . .

Pior que não ter oportunidade, é ter e não saber aproveitá-la quando aparece, não atingir as espectativas, sejam elas pessoais ou de fora. Ter a consciência que você foi fraco, ou não conseguiu dar o máximo de si; reconhecer que você é mortal como qualquer um, tem limites imutáveis e que não é nem Deus nem o diabo.

Humildade, meu filho. Reconheça que ninguém é melhor que ninguém. Todos somos diferentes, mas todos somos humanos, de carne e osso. Temos nossas virtudes, mas também erramos. Nunca espere tudo de bom e do melhor se você está aí, sentado, de braços cruzados. Não espere que as coisas acontecerão de graça; tudo tem um preço: concessões, largar vícios, empenhar-se mais em outras áreas, difíceis mudanças. “Quem dera poder mudar certas coisas”. Mas você não é Deus — que isso fique bem claro!

Ouvindo: Don Davis - “Matrix Reloaded” Suite (17:35)

Comentários »

  1. “Quem dera poder mudar certas coisas”
    Eu conheço isso de algum lugar..
    Bjus guri :P

    Comentário de MonikitA — 26.06.2004 às 17:54

  2. Poderia ficar me dia todo lendo seus textos..
    pq são muito bons…
    logo eu q não sou de gostar muito de ler..
    amei os seus…me prendeu a leitura…
    rss..até add aki nos meus favoritos…
    ^^

    Comentário de WD — 16.07.2008 às 01:00

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