Comida requentada

Batatas-fritas murchas, “graxentas”, ao contrário das McBatatasFelizes, não são nem um pouco agradáveis. Comida requentada em geral não presta. Mas há uma rara excessão.

Lasanha requentada é o nome da perdição, do pecado, da gula! Lasanha feita na hora é boa sim. O queijo em fusão, escorrendo enquanto o pedaço é levado à boca, derretido. A repetição, porém, quando sobra algum pedaço para contar o resumo da festa, requentada no microondas — forno dá muito trabalho — tem o dobro do sabor da original.

Ao cortar, o pedaço não se desmancha. Permanece fixo, estático, durinho, aguentando friamente o corte da malvada e afiada faca que estraçalha a porção sem dó nem piedade. Seu cúmplice, o garfo, perfura o valente quadradinho que agüenta toda essa humilhação pacientemente, até chegar à última milha: a boca do malfeitor. Lá, os sabores e os aromas reunem-se numa combinação explêndida de prazer e saciedade. O queijo, já um tanto borrachudo, parece que dança entre os dentes quando é mastigado. Uma verdadeira festa de arromba ocorre entre a língua e o céu da boca.

Ó-quei… Chega! Três parágrafos falando de uma lasanha… Algo está errado…

Ouvindo: Barão Vermelho – Amor meu grande amor

Superação

É triste pensar que no ano que vem por aí tudo será diferente. Não verei mais todos os mesmos rostos às sete e quinze da manhã, não contarei com a disposição dos meus professores, não precisarei me dirigir à rua Dr. Mario Sperb de segunda à sábado, não vou mais… Pensamentos do tipo vagam a minha confusa cabeça diariamente, especialmente a convicção que não irei ver muitos pelos quais tenho grande estima. E uma passagem das Confissões de Adolescente, chamada Life as a House, me fez tentar começar a colocar em ordem esses pensamentos e avaliar um pouco a situação, de fora:

“(…) A vida é cheia de mudanças, as vezes essas mudanças são lentas e passam despercebidas, mas outras vezes são tão bruscas que causam choque, e devemos saber lidar com ambas.”

Tenho plena consciência que minha vida está mudando e que nada daqui para frente será o mesmo. E isso tudo faz pensar e lembrar como eu fui burro durante todo esse tempo. Arrependo-me por tudo aquilo que não fiz. Dos erros nada tenho a me arrepender, pois foi com eles que aprendi a me tornar uma pessoa melhor, ainda que não seja ESSA pessoa melhor. Mas muita coisa eu deixei passar, muitas oportunidades que, seja por medo ou por falta de coragem de tentar, deixei passar. Muita coisa, até hoje. Como tudo é tão simples…

Sei, porém, que minha vida não acaba aqui, neste momento gelado e sombrio e que ainda me resta muito tempo para corrigir muita besteira em minha vida. E bota besteira nisso! O pior de tudo — ou talvez o mais dolorido — é saber os meus problemas e sentir-se incapaz de corrigi-los. Até porque um deles é ser cabeça-dura! E para chegar aonde eu realmente quero, preciso de uma guinada de 180 graus, e não 360 pois não quero voltar ao mesmo lugar.

Algumas mudanças já estão ocorrendo, sim. Estou me esforçando, mas creio que ainda não o bastante. Não, nem perto do bastante. Cheguei a essa conclusão hoje mesmo, através do real entendimento da palavra superação.

NOOOOOOSSA! Nem eu acredito! Hoje sim eu me superei numa área que há muito tempo não me destacava; estava lá abandonada e empoirada num porão escuro e fedorento. Eu diria: que dia de ouro… Diria, mas, faltou somente uma coisa. Ficaremos com um “que grande dia!”

Ouvindo: Ben Harper – She’s only happy in the sun

Frente fria

Seis e quinze da manhã, dispara o rádio-relógio. Tá na hora, tá na hora!, grita o locutor, que informa a temperatura: oito graus. Debaixo de dois cobertores completamente modelados ao corpo, com apenas as pontas do cabelo e os olhos de fora o sonâmbulo finge que é domingo e que dá pra ficar na cama até tarde. Toca uma, duas, quatro músicas e chega a hora que você percebe que já está atrasado. O que eu sonhei hoje? Ah… Não adianta enrolar, hora de colocar o pé esquerdo no chão gelado e dirigir-se ao banheiro.

Após ter colocado algo dentro da barriga, aí então você acorda e se dispõe a falar alguma coisa. A idéia de que um novo dia começou finalmente começa a fazer sentido.

Colocar o pé pra fora de casa é a confirmação de que está realmente frio. Pensa duas vezes se deveria ter pego um jaqueta mais quente — ou quem sabe luvas. Não, depois tem que ficar carregando para cima e para baixo, melhor não.

Durante o dia a temperatura não sobe muito e as pontas dos dedos permanecem frias durante o resto do dia. Mãos frias, coração quente, diria sua avó. Sendo o ditado verdadeiro ou não, o que importa é que os dedos gelados encomodam. Era preferível estar com, meio guarda roupa no corpo — dois blusões, um moletom e mais uma camiseta por baixo, sem falar na jaqueta –, andando como um pingüim, com os braços arqueados e imóveis, do que estar passando frio. Novamente lhe vem à mente que você deve estar feliz por não estar carregando meio quilo de roupa e se conforma.

Passando frio, o pobre do corpo trabalha a milhão, e, conseqüentemente, fica mais difícil barrar os alienígenas. Logo vêm de carona uma gripe, dor de garganta, nariz escorrendo, olhos lacrimejando e a maldita dor de cabeça. Sem falar no risco de pneumonia, que lhe assombra toda vez que você passa dos limites.

O frio é sem dúvida mais romântico, e isso não posso negar de jeito algum. Poxa, só por ter mais um motivo para permanecer abraçado à sua amada — “por causa do frio”, é claro –, tomar um chocolate quente, ir pra um ambiente fechado e aconchegante, “ver um filme à toa no patê”… As possibilidades são inúmeras. Mas quando se está sozinho, trabalhando, estudando ou fazendo qualquer coisa que não lhe permita ir para perto de uma fonte de calor é dose.

Sinto que uma gripe está me perseguindo. Por precaução, tomei uma dose tripla de suco de laranja. E sim, compreendo que de nada isso adianta, já que meu organismo não absorve vitamina C em excesso, mas deu vontade de tomar um suco bem gelado hoje. E como estava bom!

Ouvindo: Dream Theater – Stream of Consciousness

Isso é que é baile!

Tradicional e anualmente, minha escola promove um jantar-baile para comemorar seu aniversário. Apesar de nunca ter ido a nenhum desses bailes, nem muito menos meus pais, decidi que este ano eu iria comemorar o 68º aniversário da escola.

Não tive a menor dúvida ao escolhar meu terno para vestir; afinal, era um evento importante, estava frio e o traje sempre cai bem. Após toda minha família ter rido da minha cara ao dizer que iria no baile, tomei banho, me arrumei, deixei meus pais felizes ao verem seu filhinho usando terno, gravata e sapato, e pedi uma carona pra minha irmã.

Chegando na Sociedade Ginástica, fui recepcionado por professores, alunos e funcionários da escola. Já havia muita gente, embora eu tenha sido bastante pontual. Encontrei a mesa que nossa turma havia reservado e, para minha surpresa, somente eu estava representando a ala masculina da turma. Que pena… Tive de ficar rodeado de mulheres lindas, muito bem vestidas, maquiadas e penteadas — tarefa árdua essa! Mas não foi por muito tempo, logo chegaram reforços.

A cada minuto via alguém diferente. Olha o meu ex-professor ali! Olha lá, aquele cara fez inglês comigo. Olá, como vai o senhor, tudo bom? Mas que elegância, hein?, nossa, era uma rasgação de seda jamais vista. O jantar foi anunciado e logo formou-se uma fila quilométrica no buffet. Buffer, aliás, chamado Pedrinho — vê se pode! Acabei ficando de responsável pela comanda da mesa, e ao saber meu nome, o garçom disse que conhecia minha família. Qualquer coisa ele poderia ir até em casa pra cobrar as despesas — não, não sou de calote.

Após todos estarem estufados — e muito bem estufados –, de barriga cheia de tanto comer, o diretor da escola fez um pronunciamento, pediu que se levantassem os professores, ex-alunos, alunos, funcionários, pais, todos ovacionados… Palmas, muitas palmas! Aplausos! De súbito chega minha colega dizendo: “Prepara a câmera! Prepara, vamo logo! Tu vai ver a cena mais ridícula da tua vida”.

Pois não é que dou uma olhadela em direção ao banheiro femino e digo: “Não, não estou vendo alguém caracterizado de alemão! Não, não estou!” Boatos começam a correr, uma grande suspeita é formada. Entrementes, a atração da noite, a banda Callendula inicia sua perfomance, com um tenor cantando “O solle mio!!!!”. Hahaha. Não é que depois abre-se a cortina e entra o vice-diretor e sua esposa, acompanhado de outros professores, todos caracterizados de Fritz und Frida, bermudinha no meio da coxa, presa à altura do umbigo, de chapéu e suspensório. Nossa! E gritavam: “Venham, juntem-se à dança! É fácil!”

Casais começaram a levantar e uniram-se à roda que se formava na pista. Opa! Que festa, que alegria, que cena mais cômica! Eu não agüentava de tanto rir, cheguei a ficar caliente. Concluída esta roda, a banda prosseguiu tocando de tudo um pouco: forró, bolero, mambo, rock, enfim, de tudo.

O tronco aqui obviamente não iria dançar, poupando-se da vergonha. Mas ao ser convidado, não poderia negar o convite. Pensou duas, três, quatro, setenta vezes e acabou dizendo “dane-se, eu vou me divertir um pouco!”. Fui à pista e sei lá o que fiz. Dizem que eu dancei, mas até agora não sei bem o que aconteceu. Eu sei que eu ri, mas ri muito!

(leia mais…)

Tradução literal

Talvez um dos assuntos mais discorridos aqui neste diário eletrônico é, sem dúvida, relacionado à música. “Sem música eu não vivo”, “saiu o DVD da banda tal”, “gostei do álbum não-sei-o-quê”, é tanto tópico que até mesmo uma categoria exclusiva para o assunto existe.

Hoje mesmo estava eu deitado no sofá, sem vontade alguma para fazer algo produtivo, e iniciei uma maratona musical. Tá, dois shows então, os clássicos Acústico 2, do Nenhum de Nós e Live 2003, do Coldplay, ambos já comentados aqui. Coloquei o volume baixinho, deixando a música me conduzir lentamente ao sono profundo…

Acordei. Me empolguei e continuei no meu show particular, perturbando os vizinhos e rindo à toa da vida. Cantando feliz como ninguém, despreocupado com tudo e com todos. Deixando a balada fluir e conduzir minhas ações…

Pois não é verdade que as músicas são as melhores traduções para um sentimento? Um quadro é estático, assim como uma fotografia. Uma obra escrita chega perto da perfeição, mas não lhe deixa dançar. Um filme é longo, emocionante, mas não lhe seduz tão facilmente como uma música. E se for pro lado das drogas: todas te deixam legalzão e animado, mas todas te matam também. Resumindo: música é remédio pra todas as dores, só te deixa surdo. Melhor que este remédio, só existe um: aquele que leva os artistas, poetas e músicos expressarem-se com tamanha perfeição…

Já aconteceu comigo diversas vezes de passar batido por algumas músicas até que, num determinado momento, seja de depressão ou paixão, parece que tudo se encaixa e as palavras e melodias entram em ressonância com seu estado de espírito. E aquela música pela qual você não dava nada, torna-se a síntese do período que estás vivendo; tudo se encaixa brilhantemente.

Só por curiosidade, costumo citar a última música que eu estava escutando ao escrever uma entrada aqui no blog. Ao todo já foram 167 citações, das quais 24 foram da banda Dream Theater, 12 do Coldplay e 9 do Nenhum de Nós. Desse total, 5 das indicações não se tratavam de músicas, mas de sons do ambiente ou loucuras do escritor mesmo. E como hit número um tenho a música Yellow, tocada 4 vezes.

Observo, também, como meu gosto musical molda-se aos períodos em que vivo. Há alguns anos, eu não ouvia nada que não tivesse acordes bem baixos e rápidos. Passei também por uma fase punk ou hardcore, uma fase erudita, romântica, e, hoje, bem liberal. Escuto — e sou obrigado a escutar — praticamente quase todo tipo de música, até por ser do Departamento de Som do colégio e, portanto, responsável por sonorizar os recreios. Tarefa esta, aliás, que me enche deixa com uma tremenda dor de cabeça. Como é difícil agradar meio mundo!

A conclusão que chego é… não sei, o que se pode concluir disso tudo? Puxa vida, é meio difícil concluir algo neste momento. Vamos concluir, então, deixando uma canção no ar…

Ouvindo: Radiohead – Creep

« Posts recentesPosts antigos »