Bom coração

Simples atos, por menores que sejam, me fazem acreditr que a raça humana não está perdida e que ainda existem pessoas boas neste mundo. Gente que tem bom coração. Considero solidário aquele que ajuda sem a intenção de ganhar algo, como um meio para um fim. Isso é ser oportunista, não solidário.

Hoje à tarde, por exemplo, sujeitei-me a uma tarefa pra lá de constrangedora. Anualmente os alunos do terceiro ano promovem algumas atividades para arrecadar fundos para sua formatura ou viagem de fim de ano e, em 2004, chegou nossa vez de arregaçar as mangas. Com dez cartões de meio-frango pra vender e sem ninguém querendo comprar, passei a atacar os pais na saída da escola. “Boa noite! O senhor não está interessado em comprar cartões para o meio-frango com salada que irá ocorrer neste sábado aqui na escola? Somos alunos do terceiro ano e estamos arrecadando fundos para nossa formatura. Não? Tudo bem, muito obrigado e tenha um bom dia!”

Muita gente vira a cara. Outros mentem, afirmando que esqueceram a carteira, que compram amanhã, que o cachorro engoliu a carteira, que foi assaltado, enfim. A profissão de vendedor é nada fácil. Por outro lado, algumas almas caridosas dispõem-se a comprar sem mesmo ter a certeza que poderão ir. Ou porque já tiveram filhos no terceiro ano e compreendem a árdua tarefa, ou porque sentem pena da gente. De qualquer modo é uma grande ajuda.

Outra demonstração de bondade aconteceu com um colega. Cheguei atrasado no colégio hoje, pois tive de colher alguns pepinos logo nas primeiras horas da manhã, e, conseqüentemente, acabei perdendo algumas explicações da aula de física. Resultado: o que significa aquilo que está escrito no quadro?

À tarde, encontrei meu colega, monitor de Física, sentado em sua sala sem ninguém para dar aula. Conheço o drama pois já exerci a “profissão”. Os alunos só aparecem em semana de prova e olhe lá! Perguntei se não poderíamos revisar a matéria vista durante a manhã e ele prontamente ofereceu-se. Começamos a repassar a matéria e o conteúdo fluía. Questionamentos, perguntas e respostas apareciam nos lugares menos esperados, e ambos construímos o pensamento juntos. Uma das melhores aulas que já tive. E o rapaz com a maior disposição possível. Gente fina!

A terceira e última ilustração aconteceu não comigo, mas com o meu pai. Ele colocara em sua pick-up uma caixa para levar até outra empresa. Durante seu trajeto, acabou passando por uma lomba muito acentuada e eis que ele escuta um estrondo e vê a caixa no chão através do espelho retrovisor. Carros passam por cima da caixa, uma pequena confusão se forma e ele dá a volta para tentar recuperá-la.

Nesse meio tempo, um motorista de ônibus estacionou o veículo no meio da rua, bloqueando o trânsito e, com a ajuda de outros dois homens, empurraram a caixa até o acostamento. Chegando no local, meu pai ficou avaliando a situação e então aproximou-se um homem que notoriamente estava passando por dificuldades financeiras — afinal, quem não está?

O homem, com a maior boa vontade, ofereceu ajuda para transportar a caixa, que não era nem um pouco leve, até o carro. Sem sua ajuda, meu pai não teria conseguido realizar a tarefa sozinho. Agradecido, sacou algum dinheiro da carteira e deu ao homem, que, de tão comovido, só faltou chorar. “O senhor não sabe como esse dinheiro estava me fazendo falta.” Claramente esse homem não esperava nada em troca. Por pior que fosse sua situação, ele ajudou por ajudar. Fez o que fez pois acreditava estar fazendo o certo.

Quem é um fiel leitor dessas palavras eletrônicas pode já estar com náusea de tanto ler pensamentos sobre este tópico. É verdade, já tratei do tema em diversos textos, como Odeio inveja! e Geração Chapolin, mas ainda assim creio que a bondade recompensa e, profetizando essas palavras, talvez para alguém faça sentido. Não sei. Muita coisa depende apenas de boa vontade. Mais boa vontade e menos oportunismo. Isso é essencial para um mundo melhor.

Um dia você pode estar cansado de carregar seus amigos nas costas. Um dia você pode achar que está carregando a cruz sozinho e não entende por que lhe ofereceram este cálice de vinho tinto de sangue. Você pode estar deprimido pois não é reconhecido por aquilo que faz bem, mas só é lembrado em sua derrota. Para muitos, a vida é cruel, eu sei — e é difícil evitar que isso aconteça. Mas por que deixar que estraguem seu dia se você não fez nada de errado? O único arrependimento que podemos ter é daquelas coisas que não podemos mais fazer. O resto, tudo está em tempo.

“Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé” (Antoine Saint-Exupière). Cedo ou tarde, as sementes transformam-se em belos frutos.

Ouvindo: Red Hot Chilli Peppers - Save the Population

PS: A propósito… Ainda disponho de alguns cartões. O meio-frango, que acompanha salada, ocorrerá no Colégio Sinodal, dia 29/05, sábado, das 11h30min às 13h30min. Os cartões estão sendo vendidos ao preço de R$ 6,00 e há a possibilidade de almoçar no local ou levar o almoço para casa. Obrigado!

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