Frente fria
Seis e quinze da manhã, dispara o rádio-relógio. Tá na hora, tá na hora!, grita o locutor, que informa a temperatura: oito graus. Debaixo de dois cobertores completamente modelados ao corpo, com apenas as pontas do cabelo e os olhos de fora o sonâmbulo finge que é domingo e que dá pra ficar na cama até tarde. Toca uma, duas, quatro músicas e chega a hora que você percebe que já está atrasado. O que eu sonhei hoje? Ah… Não adianta enrolar, hora de colocar o pé esquerdo no chão gelado e dirigir-se ao banheiro.
Após ter colocado algo dentro da barriga, aí então você acorda e se dispõe a falar alguma coisa. A idéia de que um novo dia começou finalmente começa a fazer sentido.
Colocar o pé pra fora de casa é a confirmação de que está realmente frio. Pensa duas vezes se deveria ter pego um jaqueta mais quente — ou quem sabe luvas. Não, depois tem que ficar carregando para cima e para baixo, melhor não.
Durante o dia a temperatura não sobe muito e as pontas dos dedos permanecem frias durante o resto do dia. Mãos frias, coração quente, diria sua avó. Sendo o ditado verdadeiro ou não, o que importa é que os dedos gelados encomodam. Era preferível estar com, meio guarda roupa no corpo — dois blusões, um moletom e mais uma camiseta por baixo, sem falar na jaqueta –, andando como um pingüim, com os braços arqueados e imóveis, do que estar passando frio. Novamente lhe vem à mente que você deve estar feliz por não estar carregando meio quilo de roupa e se conforma.
Passando frio, o pobre do corpo trabalha a milhão, e, conseqüentemente, fica mais difícil barrar os alienígenas. Logo vêm de carona uma gripe, dor de garganta, nariz escorrendo, olhos lacrimejando e a maldita dor de cabeça. Sem falar no risco de pneumonia, que lhe assombra toda vez que você passa dos limites.
O frio é sem dúvida mais romântico, e isso não posso negar de jeito algum. Poxa, só por ter mais um motivo para permanecer abraçado à sua amada — “por causa do frio”, é claro –, tomar um chocolate quente, ir pra um ambiente fechado e aconchegante, “ver um filme à toa no patê”… As possibilidades são inúmeras. Mas quando se está sozinho, trabalhando, estudando ou fazendo qualquer coisa que não lhe permita ir para perto de uma fonte de calor é dose.
Sinto que uma gripe está me perseguindo. Por precaução, tomei uma dose tripla de suco de laranja. E sim, compreendo que de nada isso adianta, já que meu organismo não absorve vitamina C em excesso, mas deu vontade de tomar um suco bem gelado hoje. E como estava bom!
Ouvindo: Dream Theater – Stream of Consciousness
