Lâmina que cura
Louvado seja meu canivete! Presente de aniversário do meu avô em 1997, época que eu devia ter uns 10 anos. Era tão absurdo, mas tão absurdo que vinha com estojo de couro, caneta, lapiseira, lima, band-aid, papel, fósforos e se duvidar faz até café, o que ainda não descobri como fazer. Já no primeiro dia de brincadeira eu decidi colocar o dedo na lâmina pra ver se era afiada. Era, fiz um corte profundo no dedo indicador. Mas graças a ele meu celular voltou a funcionar. Aliás, vamos recapitular como meu celular estava “vivendo”.
Como já havia sido prenunciado numa história anterior, o mensageiro estava prestes a morrer. A tela deixava de funcionar sistematicamente, mas nada que uma massagem na tela não resolvesse. Ele resistiu, portanto, com bravura e honras militares — as mais altas condecorações possíveis.
Há algumas semanas, porém, ele tomou um tombo fatal. Estando no bolso externo da minha mochila, que estava aberto, acabou sendo ejetado pois meu pé se enroscou na mesma. Caiu no chão e eu, tentando me apoiar pra não cair junto, depositei minha pata bem sobre ele, que acabou virando um skate; cena linda de se ver — só um pateta como eu mesmo seria capaz de uma proeza destas.
Dias depois, angustiado que não conseguia ler uma mensagem, acabei apertando com força demais na tela, que acabou por trincar. Logo em seguida, o display parou de funcionar. Neste estado o celular estava uma maravilha: só funcionava a parte de telefonia mesmo.
Mão-de-vaca do jeito que sou, pensei que seu destino não se limitava a um final tão trágico e curto, criei esperanças que tudo acabaria resolvendo-se no fim. Passei então a adotar alguns macetes para utilizá-lo: para saber se alguém havia me ligado, eu apertava o botão do menu e, caso escutasse um “piiiiii”, significava que havia novas chamadas não-atendias. Feito isto, apertava o botão para discar e bipava a pessoa (cartão pelo menos eu tinha).
Mandar mensagens ficou divertido também. Sem poder lê-la, saía algumas coisas bem interessantes. Graças ao recurso T9, que adivinha as palavras que você deseja escrever, a fim de poupar alguns dígitos, nem sempre o que eu queria dizer ele acertava, e ocorreram diversos problemas de entendimento.
Tendo recebido uma mensagem no dia 21 deste mês e ficado agoniado para saber quem era, peguei meu canivete tamanho-família, peguei a mini chave de fenda que o acompanha e descobri que ela era do mesmo diâmetro do parafuso sextavado do celular. Ótimo!
Dissequei meu celular, bem como os alunos das escolas americanas dissecam sapos nos filmes que vemos. Desmanchei completamente, fotografei, gostei, montei e o primeiro resultado foi positivo: consegui montar novamente; pelo menos ele “fechou”. O segundo resultado foi negativo: a tela não voltou a funcionar. O terceiro, descoberto só mais tarde foi péssimo: o microfone deixara de funcionar! Conseqüentemente, ele ficou desligado desde então.
Aproveitando que sexta-feira é meu único dia livre, fui ao centro numa loja de celulares escolher um substituto para trocar meu fiel amigo. Legal é que todos os modelos que eu gostei custavam mais do que R$ 900,00 — plano pós-pago. Fui decidido a comprar um modelo que havia visto, gostado e aprovado. Mil reais é muito dinheiro. Saí da loja como um cachorro após um pontapé do seu dono: olhar perdido, orelhas baixas e rabo entre as pernas. E ainda chovia. E eu passando frio! Sem ter almoçado!
Mil reais é muita grana. Olhei para o celular, olhei para o canivete e disse: chegou sua hora amigo. É agora ou nunca. Desmanchei mais uma vez o celular, verifiquei as peças, encaixei o microfone de outro modo, limpei os contatos, olhei mais uma vez, parafusei tudo novamente e… não é que o display funcionou!
Agora já sei. Se algum dia tiver de escolher algum objeto pra levar pra uma ilha deserta, será meu canivete. Pelo menos poderei continuar tomando café preto…
Ouvindo: Nickelback – Feelin’ way damn too good.
Post Scriptum: Peço desculpas pelo abandono temporário do meu recanto virtual, mas essa semana foi algo pra não ser vivido novamente em uma era. Além de provas, que extender-se-ão durante a semana por vir, diversos fatores abalaram minha estrutura mental, psicológica, emotiva, racional, existencial, física e sentimental, o que resultou em poucas horas de sono, depressão, tristeza e falta de criatividade. Voltaremos!

nossa, em que mundo eu estava que não vi nada disso acontecer(me refiro ao ps…)???
Comentário de Amanda — 30.04.2004 às 21:19
kra, existem presentes, q por mais absurdos q sejam, valem pra vida toda, meu avo faleceu antes de ontem, e ate hj tenho um jogo de domino horrivel q ele me deu, vou tentar guarda-lo pra vida toda, eh isso, gurde esse canivete com todo seu coracao, pois no dia q vc naum tiver mais seu avo, vc vai olhar esse presente absurdo, e vai se lembrar do corte no dedo, e tbm vai se lembrar q com certeza seu avo ficou preocupado, entaum simultaneamente, vai lembrar dos momentos felizes, nossa como eu falo! valeu, teu blog e muito show!!!!
Comentário de Rondson — 02.05.2004 às 09:52