Reencontro

Tarde de um dia nublado. Era a primeira vez que se encontravam após dias entre encontros e desencontros. Passaram-se, na verdade, dias, meses, talvez anos. O tempo nada importava na ocasião. Ambos estavam sem pressa, dispostos a conversar sobre os rumos que suas vidas tomaram.

Pediram um sorvete e uma água. Sorvete de flocos para ele, napolitano para ela. O calor era grande, mas cada pedaço era levado com a pá, de madeira, suavemente até a boca, onde derretia-se e espalhava o prazer de um sorvete macio, doce, misturando-se com a calda de chocolate quente. Soava um blues agradável ao fundo.

Trocaram olhares. Sairam. Sentaram numa praça e esqueceram do mundo como sempre sonharam fazer tempos atrás. Viram as pessoas passando, chegando do trabalho, da escola, da universidade, rostos exaustos, inchados de calor, almejando voltar para casa; rotina — chata por dentro, cômica de fora.

Ele não sabia o que dizer. Compreendia toda a situação, mas tudo parecia ser tão irreal e constrangedor que o muro existente entre sua boca e suas memórias ficava cada vez mais alto. As palavras, antes tão claras, polidas e abundantes desapareceram, deixando-no sem fala. De cúmplices a traidoras.

Tanto tempo sem se falar. Tanto por dizer. Quebraram o gelo e partilharam de suas experiências mais profundas, mais íntimas. O âmago dos dois estava ligado por olhos brilhantes, cerrados, atentos a cada palavra, prontos para qualquer surpresa. Olhos de duas crianças entretidas numa brincadeira.

Ela entendia aquilo que ele não sabia dizer; entendeu cada palavra não dita. O olhar valia mais que qualquer palavra e era a melhor explicação que podia se ter para tudo aquilo. Deixaram que o silêncio conduzisse seu caminho. Deram voltas e mais voltas. Desviaram do assunto, relembraram o passado e riram do futuro que antes sonharam. Devaneios sobre uma vida utópica.

Trovejou e tiveram de partir. Abraçaram-se e beijaram-se. As mágoas escorreram e ficaram depositadas no solo; seriam levadas pela chuva. Prometeram se ver novamente, mas tanto ele como ela sabiam que isso não voltaria a acontecer. Ela se foi deixando o rapaz ali. Arrastou a amizade consigo, que acabou tropeçando as escadas e fraturou a espinha dorsal. Sabiam que dali em diante não iriam se ver denovo. Temiam este futuro tenebroso, mas pouco podiam fazer para evitá-lo. Enterraram as esperanças de um futuro promissor. A razão falou mais alto.

Continua…

Ouvindo: Eric Clapton - Change the world

PS: Deu vontade de escrever. Este texto é, em sua maioria, mera obra de ficção; não existem entrelinhas. Portanto, nem tente encontrá-las.

Comentários »

  1. Nossa … !!! ???

    Comentário de Thiago — 22.04.2004 às 21:59

  2. prometo não tentar nada…:P

    Comentário de Amanda — 24.04.2004 às 00:08

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